lunes, 26 de febrero de 2018

Depois do referendo de 4 de fevereiro

Por Decio Machado

Em 4 de fe­ve­reiro o povo equa­to­riano de­cidiu ter­minar com a he­ge­monia cor­reísta que do­minou o país nos úl­timos 11 anos. Dois de cada três ci­da­dãos vo­taram a favor das per­guntas da Con­sulta Po­pular im­pul­si­o­nada pelo Go­verno Na­ci­onal, em uma ló­gica de dis­puta aus­pi­ciada pelo ex-man­da­tário Ra­fael Correa, pro­du­zindo-se pela pri­meira vez na his­tória uma re­jeição ci­dadã ma­jo­ri­tária aos seus pos­tu­lados po­lí­ticos. Até então – me­di­ante con­sultas po­pu­lares, ple­bis­citos, re­fe­rendos – o ex-pre­si­dente Correa havia che­gado a acu­mular em apenas dez anos doze vi­tó­rias con­se­cu­tivas nas urnas.

Das sete per­guntas im­pul­si­o­nadas pelo Exe­cu­tivo, as três pri­meiras ti­nham re­lação di­reta com o cor­reísmo, abor­dando temas como:

•    A su­pressão de di­reitos po­lí­ticos de con­de­nados por cor­rupção, o que afeta a um nú­mero cada vez maior de altos fun­ci­o­ná­rios que for­maram parte do nú­cleo de poder do re­gime an­te­rior – já há uma de­zena de ex-mi­nis­tros cor­reístas que se en­con­tram im­pu­tados em di­fe­rentes pro­cessos e este nú­mero au­men­tará – e que po­deria ter­minar afe­tando o pró­prio Ra­fael Correa.

•    A eli­mi­nação da emenda cons­ti­tu­ci­onal apro­vada na úl­tima fase do go­verno an­te­rior, pela qual im­ple­men­tava a re­e­leição in­de­fi­nida nos cargos de gestão pú­blica a partir de 2021, e que per­mitia a Correa voltar a se apre­sentar, tal como era sua in­tenção, no pró­ximo pleito pre­si­den­cial;

•    E a re­com­po­sição do Con­selho de Par­ti­ci­pação Ci­dadã e Con­trole So­cial – po­pu­lar­mente co­nhe­cido como o quinto poder cons­ti­tu­ci­onal – cujos mem­bros de­sig­navam parte dos ti­tu­lares das ins­ti­tui­ções do país, o que per­mitiu ao apa­rato cor­reísta se­guir con­tro­lando a es­tru­tura do Es­tado, apesar de o ex-pre­si­dente não ocupar mais o cargo má­ximo.

O que foi o cor­reísmo?

Com­pre­ender a si­tu­ação atual do Equador sig­ni­fica en­tender o que foi isso que se con­ven­ci­onou chamar de cor­reísmo e porque deixou de ser fun­ci­onal neste mo­mento para as elites equa­to­ri­anas.

Desde 1997, a partir do go­verno de Ab­dalá Bu­caram, o Equador inau­gurou uma etapa de crise ins­ti­tu­ci­onal per­ma­nente que fez com que ne­nhum pre­si­dente eleito desde então nas urnas con­se­guisse ter­minar o man­dato.

Evi­den­te­mente, isso ge­rava grande ins­ta­bi­li­dade po­lí­tica e se tornou um fator de de­se­qui­lí­brio im­por­tante a res­peito de uma po­lí­tica de in­ves­ti­mentos que se fa­ziam cada vez mais ur­gentes e ne­ces­sá­rias para a mo­der­ni­zação ca­pi­ta­lista que o país de­veria em­pre­ender após a crise fi­nan­ceira de 1999 e 2000.

Com a en­trada do pre­sente sé­culo, a eco­nomia mun­dial se es­ta­bi­lizou, su­pe­rando vá­rias e im­por­tantes crises so­fridas em di­versos países do mundo – Mé­xico e Ve­ne­zuela (1994), Tai­lândia, In­do­nésia, Fi­li­pinas, Taiwan, Co­reia do Sul (1997), Rússia (1998), Brasil (1999) ou Ar­gen­tina (2001) – o que per­mitiu a me­lhora econô­mica in­ter­na­ci­onal, com taxas de cres­ci­mento de 4% a 6% no co­meço da dé­cada, até a che­gada da crise fi­nan­ceira global de 2008.

Da mesma forma, desde 2003 os preços das com­mo­di­ties au­men­taram pelos efeitos dos fu­ra­cões, como o Ka­trina, em ins­ta­la­ções pe­tro­leiras; o cres­ci­mento na eco­nomia; e, par­ti­cu­lar­mente, pelo auge da in­dús­tria da cons­trução, que ter­minou em uma bolha es­pe­cu­la­tiva cuja ex­plosão fez os in­ves­ti­dores vol­tarem suas pautas a mer­cados es­pe­cu­la­tivos, tais como de ouro e pe­tróleo, cau­sando uma su­per­de­manda ar­ti­fi­cial, o que fez o preço do óleo cru chegar ao seu ápice de 147,27 dó­lares o barril, em julho de 2008.

Neste con­texto, o óleo cru equa­to­riano, que de­pende da co­ti­zação do pe­tróleo norte-ame­ri­cano West Texas In­ter­me­diate (WTI) – que é o pa­râ­metro de óleo cru nos EUA - e ba­si­ca­mente é ven­dido tanto pela Pe­tro­E­cu­ador como pelas com­pa­nhias pri­vadas es­tran­geiras do país, também elevou no­ta­vel­mente seus preços.

Sendo um país eco­no­mi­ca­mente de­pen­dente de tal pro­duto, o cres­ci­mento médio do PIB equa­to­riano du­rante a pri­meira dé­cada do pre­sente sé­culo foi de 4,4%, en­quanto du­rante os dez anos an­te­ri­ores tal in­di­cador não su­perou 1,8%. O an­te­rior in­dica que a partir do ano 2000, a eco­nomia equa­to­riana co­meçou a con­so­lidar em grande me­dida apoiada pelas con­di­ções fa­vo­rá­veis – preço do pe­tróleo e re­messas pro­ve­ni­entes dos mi­grantes – ge­rando-se as con­di­ções ade­quadas para uma mo­der­ni­zação tardia do sis­tema ca­pi­ta­lista na­ci­onal.

Neste con­texto, o setor mais di­nâ­mico do ca­pital na­ci­onal en­tendeu que po­deria me­lhorar suas pos­si­bi­li­dades de ne­gócio pro­pi­ci­ando um maior nível de con­sumo nos mer­cados in­ternos através de certa di­visão do ex­ce­dente pe­tro­leiro – não da dis­tri­buição da ri­queza que con­tinua em mãos de poucos – e a in­cor­po­ração ao mer­cado de se­tores po­pu­lares me­di­ante o en­di­vi­da­mento fa­mi­liar e fi­nan­cei­ri­zação po­pular (de­mo­cra­ti­zação do con­sumo com base em em­prés­timos do setor fi­nan­ceiro pri­vado). Este é o papel que fun­da­men­tal­mente de­sem­pe­nhou o go­verno de Ra­fael Correa du­rante o úl­timo pe­ríodo de bo­nança econô­mica no Equador. 

Ao largo da pri­meira dé­cada do pre­sente sé­culo, a maior fatia de par­ti­ci­pação no PIB da eco­nomia na­ci­onal foi o con­sumo pri­vado, o qual re­pre­sentou uma média de 66,6% do PIB, con­ver­tendo-se em fator de maior con­tri­buição ao cres­ci­mento na­ci­onal du­rante o pe­ríodo prévio à queda de preços do pe­tróleo.

A di­na­mi­zação da eco­nomia na­ci­onal tendo como motor o Es­tado, eixo da po­lí­tica econô­mica cor­reísta, sig­ni­ficou que os se­tores em­pre­sa­riais e fi­nan­ceiros foram os prin­ci­pais be­ne­fi­ci­ados em uma ação que ca­recia de riscos para os in­ves­ti­mentos pri­vados, pois se fazia base do erário pú­blico.

O res­peito de­mons­trado pelo go­verno cor­reísta à ma­triz de acu­mu­lação her­dada da era ne­o­li­beral acar­retou na ine­xis­tência da mais mí­nima trans­for­mação de ca­ráter es­tru­tural sobre os pi­lares que fun­da­mentam os eixos cons­ti­tu­tivos do poder no Equador; isso, apesar de se­tores his­to­ri­ca­mente es­que­cidos po­derem se be­ne­fi­ciar du­rante o pe­ríodo de bo­nança de certas po­lí­ticas as­sis­ten­ci­a­listas, ba­se­adas na trans­fe­rência do ex­ce­dente de­ri­vado de apro­fun­da­mento das po­lí­ticas ex­tra­ti­vistas. De quebra, sig­ni­ficou que en­quanto se an­co­rava em um pro­pa­gan­dís­tico dis­curso so­be­ra­nista, no in­te­rior do país se pi­o­rava cada vez mais a de­pen­dência econô­mica in­ter­na­ci­onal dos mer­cados es­pe­cu­la­tivos glo­bais e se re­pri­ma­ri­zassem subs­tan­ci­al­mente a eco­nomia global.

O mo­delo econô­mico fun­ci­onou e in­clu­sive gozou de amplo apoio po­pular, mi­lagre econô­mico di­ziam, en­quanto durou o boom das com­mo­di­ties, indo abaixo toda a en­gre­nagem das po­lí­ticas so­ciais e econô­micas cor­reístas a partir da queda do preço do óleo cru em 2013.

É a partir de então, quando co­meçam a se de­te­ri­orar certos ser­viços pú­blicos, que a eco­nomia na­ci­onal se pa­ra­lisa, o con­sumo in­terno cai e os in­di­ca­dores de di­mi­nuição da po­breza e in­cre­mento da ca­pa­ci­dade aqui­si­tiva por parte dos tra­ba­lha­dores passa a de­cair.

Em fe­ve­reiro de 2014, o go­verno do pre­si­dente Ra­fael Correa co­me­çaria a sentir o des­gaste po­lí­tico de seu man­dato, per­dendo as elei­ções sec­ci­o­nais e as prin­ci­pais pre­fei­turas do país para par­tidos de opo­sição. Os se­tores em­pre­sa­riais que em outro mo­mento ti­nham sido be­ne­fi­ci­ados pelas po­lí­ticas cor­reístas, en­tendem ser hora de di­mi­nuir o gasto pú­blico, re­duzir o vo­lume do Es­tado e voltar a li­be­ra­lizar a eco­nomia. Ante a nova falta de li­quidez do Es­tado equa­to­riano, este deixou de ser fun­ci­onal para se­guir di­na­mi­zando a eco­nomia na­ci­onal, de modo que voltou a se co­locar em questão a po­lí­tica de sub­sí­dios so­ciais.

O an­te­rior sig­ni­ficou in­cre­mento das mo­bi­li­za­ções po­pu­lares no con­junto do país e de­rivou em uma con­vo­ca­tória de greve/mo­bi­li­zação em agosto de 2015, de parte do mo­vi­mento in­dí­gena e do sin­di­ca­lismo não cli­en­te­lista, que ter­minou ver­go­nho­sa­mente re­pri­mida pelas forças de se­gu­rança do Es­tado.

O con­flito entre Correa e Mo­reno

Em tais con­di­ções, e em meio a uma agres­siva po­lí­tica de en­di­vi­da­mento pú­blico que de­rivou na su­pe­ração do vo­lume atual de dí­vida ex­terna, com so­bras, dos ní­veis her­dados da época ne­o­li­beral, o então man­da­tário equa­to­riano de­cidiu não se apre­sentar às elei­ções de 2017, mas deixou aberta a porta para uma nova pos­tu­lação em 2021.

Es­tra­te­gi­ca­mente, o cor­reísmo con­si­derou que era me­lhor outro man­da­tário a pro­ceder as po­lí­ticas econô­micas de ajuste já ina­pe­la­vel­mente ne­ces­sá­rias ao país, per­mi­tindo assim uma re­ge­ne­ração da imagem de Ra­fael Correa, que es­tra­te­gi­ca­mente vol­taria em 2021 para “salvar” o Equador dos pro­gramas de ajuste, frutos de um dé­ficit bruto, ga­lo­pante e in­sus­ten­tável. Assim, em de­zembro de 2015, a ban­cada ofi­ci­a­lista aprovou for­ço­sa­mente uma re­forma cons­ti­tu­ci­onal que per­mitia a re­e­leição do man­da­tário para o pe­ríodo ime­di­a­ta­mente pos­te­rior a uma le­gis­la­tura mar­cada pela crise econô­mica her­dada da gestão de saída.

Ainda assim, a es­tra­tégia para a volta ao poder de Correa pas­sava pela ne­ces­si­dade de se­guir con­tro­lando o apa­rato de Es­tado du­rante o atual pe­ríodo, blo­que­ando qual­quer pos­si­bi­li­dade de fis­ca­li­zação e au­di­to­rias in­ternas que pu­desse se fazer sobre um mo­delo de gestão pú­blica al­ta­mente cor­rupto, que sig­ni­ficou du­rante dez anos a sub­missão de todos os po­deres e ór­gãos de con­trole do Es­tado pelo Exe­cu­tivo.

Isso im­plicou na ne­ces­si­dade de a Ali­ança PAIS ga­nhar em 2017, fi­cando a maior parte das ins­ti­tui­ções pú­blicas em mãos de ex-fun­ci­o­ná­rios de pro­vada pro­xi­mi­dade com o ex-pre­si­dente. A única fi­gura com a qual a Ali­ança PAIS con­tava para ga­nhar tais elei­ções era Lenin Mo­reno, que por suas fun­ções de en­viado es­pe­cial do Se­cre­tário Geral da ONU sobre a In­ca­pa­ci­dade e Aces­si­bi­li­dade re­sidia em Ge­nebra desde 2014, o que im­pli­cava no fato de ter se man­tido à margem da de­gra­dação cor­reísta dos úl­timos anos. 

De­vemos nos re­meter mais atrás no pas­sado his­tó­rico do Equador para en­con­trar um man­da­tário que de­pois de dez anos de gestão con­ti­nuada do poder ter­minou seu pe­ríodo com certo res­paldo po­lí­tico – apesar da de­ca­dência dos úl­timos anos – como era o caso de Ra­fael Correa. Apesar da po­la­ri­zação so­cial criada ao redor de sua fi­gura, Correa aban­donou a pol­trona pre­si­den­cial ainda sob im­por­tante apoio so­cial, fun­da­men­tal­mente entre os se­tores po­pu­lares, os quais re­co­nhe­ciam o im­pulso a pro­jetos so­ciais de ca­ráter as­sis­ten­ci­a­lista e o in­ves­ti­mento re­a­li­zado du­rante a úl­tima dé­cada no âm­bito da in­fra­es­tru­tura e mo­der­ni­zação do Es­tado. Ainda assim, foi uma grande con­ca­te­nação ace­le­rada de erros po­lí­ticos es­tra­té­gicos que fi­zeram com que o ex-man­da­tário per­desse a he­ge­monia po­lí­tica ainda man­tida no país.

Com a che­gada da nova ad­mi­nis­tração de Lenin, o cor­reísmo dei­xava em postos es­tra­té­gicos grande parte de sua equipe an­te­rior de gestão. Isso sig­ni­fi­cava que man­tinha o con­trole sobre enorme e des­me­dido apa­rato de pro­pa­ganda go­ver­na­mental, ar­ti­cu­lado na dé­cada pas­sada, tal como se fazia a res­peito do con­trole sobre a pro­dução – sobre a qual o Es­tado equa­to­riano tinha no­tável in­ci­dência du­rante os úl­timos dez anos – no altar das res­pon­sa­bi­li­dades es­ta­be­le­cidas em torno da fi­gura do vice-pre­si­dente da Re­pú­blica, Jorge Glas, o prin­cipal homem de con­fi­ança de Ra­fael Correa no novo ga­bi­nete, que se man­tinha como res­pon­sável da mu­dança de ma­triz pro­du­tiva e in­ves­ti­mento em me­ga­pro­jetos.

Mas ao tempo, o cor­reísmo man­tinha o con­trole também sobre a frente po­lí­tica do go­verno através de fi­guras como a pri­meira ti­tular da Se­cre­taria Na­ci­onal de Gestão Pú­blica (Paola Pabón) e do con­se­lheiro pre­si­den­cial (Ri­cardo Patiño), o prin­cipal ope­rador po­lí­tico dentro da Ali­ança PAIS du­rante a gestão an­te­rior, tal como fazia a res­peito da As­sem­bleia Na­ci­onal – o le­gis­la­tivo equa­to­riano – através de seus ope­ra­dores na ban­cada ma­jo­ri­tária da Ali­ança PAIS.

Não con­tente, Ra­fael Correa con­tro­lava também, me­di­ante o Con­selho de Par­ti­ci­pação Ci­dadã e Con­trole So­cial, os ór­gãos de fis­ca­li­zação e con­trole do apa­rato de Es­tado, cuja de­sig­nação de res­pon­sável res­pondia in­te­gral­mente a per­so­na­li­dades afi­nadas ao ex-pre­si­dente. Isso ocorreu em ins­ti­tui­ções como o Con­selho Na­ci­onal Elei­toral, a Corte Cons­ti­tu­ci­onal, a Con­tro­la­doria Geral do Es­tado, a Pro­cu­ra­doria Geral do Es­tado, o Tri­bunal Con­ten­cioso Elei­toral, o Con­selho do Ju­di­ciário ou a De­fen­soria do Povo, entre ou­tros.

Apesar das ten­sões entre Lenin Mo­reno e a ala dura cor­reísta serem pal­pá­veis, desde esse mesmo mo­mento, da in­ves­ti­dura do atual pre­si­dente da Re­pú­blica, em 24 de maio pas­sado, mo­mento em que a nova ad­mi­nis­tração des­co­briu o es­tado real das fi­nanças pú­blicas, foi a en­trega da sede so­cial da CO­NAIE – es­tru­tura or­ga­ni­za­tiva do mo­vi­mento in­dí­gena e or­ga­ni­zação so­cial mais im­por­tante do país – e o anúncio em julho pas­sado dos pri­meiros in­dultos de lí­deres po­pu­lares cri­mi­na­li­zados du­rante o re­gime an­te­rior que ge­raram re­a­ções des­qua­li­fi­ca­doras de Ra­fael Correa sobre seu su­cessor.

A partir daí os ope­ra­dores cor­reístas lo­ca­li­zados em fun­ções de di­reção dos dis­tintos meios pú­blicos co­meçam a ar­ti­cular uma cam­panha contra a imagem do pre­si­dente Mo­reno, adu­zindo que o país vol­tava às po­lí­ticas do pas­sado e que se es­tava pro­du­zindo uma di­visão de po­deres com as elites oli­gár­quicas, o que sig­ni­ficou que a nova ad­mi­nis­tração mo­re­nista no­me­asse novos res­pon­sá­veis em tais meios de co­mu­ni­cação e ór­gãos. Desta ma­neira, o ex-pre­si­dente Correa perdia o con­trole do imenso apa­rato de pro­pa­ganda e co­mu­ni­cação cuja cri­ação havia sido aus­pi­ciada por ele mesmo.

Um mês de­pois, em iní­cios de agosto e já com a água no pes­coço pelas in­ves­ti­ga­ções ju­di­ciais que se fa­ziam a res­peito da trama da Ode­brecht no Equador, o então vice-pre­si­dente Jorge Glas – que fora também o se­gundo man­da­tário du­rante a úl­tima fase da era Correa – emitia uma ex­tensa carta pú­blica contra o atual chefe de Es­tado, acu­sando-o de con­vergir com os se­tores po­li­ti­ca­mente mais re­a­ci­o­ná­rios do país. A rup­tura de re­la­ções entre o pre­si­dente Mo­reno e Jorge Glas acar­retou na ina­bi­li­tação do cargo do se­gundo, o que trouxe a perda de con­trole por parte de Ra­fael Correa sobre o apa­rato pro­du­tivo e os in­ves­ti­mentos nos me­ga­pro­jetos im­ple­men­tados no país. Meses mais tarde e fruto de in­ves­ti­ga­ções ju­di­ciais an­ti­cor­rupção, Jorge Glas ter­mi­naria ocu­pando uma cela na prisão nú­mero 4 de Quito e des­ti­tuído do cargo. O cor­reísmo perdia, por­tanto, também sua in­ci­dência no apa­rato pro­du­tivo.

Poucos dias de­pois do exa­brupto vice-pre­si­den­cial e em vias de so­lu­ci­onar este con­flito, o pre­si­dente Mo­reno en­vi­aria a Bru­xelas – lugar de re­si­dência atual de Correa – os prin­ci­pais ope­ra­dores po­lí­ticos de go­verno, todos eles vin­cu­lados du­rante a gestão an­te­rior do ex-man­da­tário, com o fim de re­con­duzir de forma ami­gável as re­la­ções com o ex-pre­si­dente. Para sur­presa do Exe­cu­tivo, de­pois da volta a Quito da dita de­le­gação, suas prin­ci­pais ca­beças – Ri­cardo Patiño, Paola Pabón e Vir­gílio Her­nandez – anun­ci­avam em co­le­tiva de im­prensa a re­núncia a seus cargos no Exe­cu­tivo. Desta ma­neira, Ra­fael Correa perdia o con­trole da frente po­lí­tica go­ver­na­mental.

Des­truídos todos os ca­nais de co­mu­ni­cação entre o cor­reísmo e o go­verno mo­re­nista, o pre­si­dente Mo­reno anun­ci­aria nos pri­meiros meses de ou­tubro pas­sado a con­vo­cação de uma Con­sulta Po­pular onde al­gumas per­guntas ti­nham a ver com uma ló­gica de re­forma ins­ti­tu­ci­onal pós-cau­di­lhista que le­vasse o país a um ca­minho de su­pe­ração do re­gime an­te­rior. Isso ter­mi­naria de di­na­mitar in­ter­na­mente o par­tido do go­verno. Os se­tores afins ao ex-man­da­tário de­ter­mi­naram a ex­pulsão, de forma ir­re­gular, de Lenin Mo­reno da Ali­ança PAIS con­vo­cando sem le­gi­ti­mi­dade ju­rí­dica uma con­venção na­ci­onal da or­ga­ni­zação po­lí­tica com es­casso êxito de adesão. O fato an­te­rior acar­retou, de­pois de uma de­cisão do Tri­bunal Con­ten­cioso Elei­toral, na perda do cor­reísmo do con­trole do pró­prio par­tido. 

O úl­timo epi­sódio deste mar de de­sa­certos cor­reístas se deu já em ja­neiro do pre­sente ano, quando Correa chamou à des­fi­li­ação seus se­gui­dores de Ali­ança PAIS, o que im­plicou também na perda de con­trole do le­gis­la­tivo, fi­cando com apenas 29 par­la­men­tares, en­quanto os ou­tros 45 se ali­nharam a Lenín Mo­reno.

Em suma, apesar de ser di­fícil en­con­trar um ex-pre­si­dente que de­pois de dez anos de gestão man­ti­vesse o nível de apoio de Correa, também é di­fícil en­con­trar algum que tenha de­mons­trado tal ca­pa­ci­dade para di­la­pidá-lo tão ra­pi­da­mente.

Con­sulta e pós-con­sulta

Foi assim que se chegou a 4 de fe­ve­reiro, mo­mento em que o cor­reísmo sa­bo­reou pela pri­meira vez uma der­rota elei­toral. No fundo, as­sis­timos algo que foi mais além da re­a­li­zação po­lí­tica de uma re­a­li­dade in­dis­cu­tível no Equador: o cor­reísmo nunca cons­truiu uma força so­cial e po­lí­tica afim, mas uti­lizou o apa­rato de Es­tado ope­rando sob ló­gicas cli­en­te­listas em favor de um par­tido de go­verno e da cons­trução da imagem mi­diá­tica de Ra­fael Correa como um grande cau­dilho po­pu­lista. Isso im­plicou em que, após o aban­dono da ca­deira pre­si­den­cial e da re­cusa de seus ca­pri­chos nas ins­ti­tui­ções do Es­tado, seu apoio po­lí­tico di­mi­nuísse no­ta­vel­mente.

A so­ci­e­dade equa­to­riana votou pela con­for­mação de um re­gime de tran­sição que per­mitia su­perar a he­rança im­plan­tada pelo go­verno an­te­rior, ge­rando as con­di­ções para a cons­trução de um novo ce­nário po­lí­tico após o fim da he­ge­monia cor­reísta. Foi cor­tado o cordão um­bi­lical que vin­cu­lava o novo go­verno ao an­te­rior, o que de­sa­bi­lita a nar­ra­tiva cor­reísta de que Lenin Mo­reno ocupa a pre­si­dência do país graças ao en­dosso de votos de­ri­vado da fi­gura de Ra­fael Correa.

Após a con­sulta o país entra em uma nova fase po­lí­tica. Por um lado, o pre­si­dente Lenin Mo­reno ga­nhou mo­men­ta­ne­a­mente sua dis­puta com o an­te­cessor, apesar de Correa ainda manter um terço do elei­to­rado equa­to­riano. Correa e seus se­gui­dores, após a des­fi­li­ação da Ali­ança PAIS, estão obri­gados a con­formar um novo mo­vi­mento po­lí­tico na­ci­onal, apesar de a po­pu­la­ri­dade de seu líder estar em de­ca­dência. Correa, cons­ci­ente de que o setor de an­tigos lí­deres da Ali­ança PAIS que o acom­pa­nham nesta nova aven­tura acres­centam re­al­mente pouco, dada a má imagem di­ante da so­ci­e­dade, está obri­gado a li­derar pes­so­al­mente a cons­trução do novo par­tido. Será uma ta­refa ur­gente e nada fácil para o ne­o­cor­reísmo criar uma nova fi­gura po­lí­tica que tenha chances de dis­putar a pre­si­dência da Re­pú­blica em 2021.

Por sua parte, a von­tade de tal ten­dência é ocupar o es­paço po­lí­tico da es­querda equa­to­riana, algo que já fi­zeram em 2006, apesar dos de­sen­con­tros entre seu dis­curso e sua prá­tica. Con­se­guir tal ob­je­tivo passa por blo­quear qual­quer pos­si­bi­li­dade de cons­trução de al­ter­na­tivas po­lí­ticas no campo po­pular, algo ur­gen­te­mente ne­ces­sário para um país que sofre de uma es­querda cujo dis­curso po­lí­tico se en­contra sem ca­pa­ci­dade de sin­tonia com a so­ci­e­dade, onde não existe ge­ração de novas li­de­ranças, e que se vê ca­rente de cons­truir uma pro­posta con­vin­cente para um novo mo­delo de so­ci­e­dade e país.

Apesar de ser certo que a es­querda po­lí­tica e so­cial equa­to­riana foi fra­ci­o­nada, em muitos casos co­op­tada e até per­se­guida pelo re­gime cor­reísta du­rante os úl­timos dez anos, também é certo que existe uma in­ca­pa­ci­dade po­lí­tica por parte de sua en­do­gâ­mica di­ri­gência para se rein­ventar e re­po­si­ci­onar, com um dis­curso adap­tado ao mo­mento atual do país. O mero fato de que grande parte de tal es­querda apoiou em sua ló­gica an­ti­cor­reísta a can­di­da­tura do con­ser­vador Guil­lermo Lasso no se­gundo turno das úl­timas elei­ções pre­si­den­ciais é uma de­mons­tração pal­pável de sua de­so­ri­en­tação po­lí­tica e des­cré­dito do que atu­al­mente gozam na ci­da­dania equa­to­riana. Nas fi­leiras con­ser­va­doras, as forças po­lí­ticas que até o mo­mento de­ci­diram não fazer opo­sição po­lí­tica con­tumaz ao atual go­verno mu­daram de ati­tude.

A pro­xi­mi­dade de elei­ções sec­ci­o­nais, daqui um ano, faz as or­ga­ni­za­ções po­lí­ticas da di­reita vol­tarem a as­sumir pro­ta­go­nismo de­pois de uma ali­ança an­ti­na­tural que per­mitiu a sen­si­bi­li­dades ide­o­ló­gicas muito di­fe­rentes um pacto de não agressão em troca de tra­ba­lharem, todos juntos, pelo Sim nesta con­sulta, em nome da fi­na­li­dade de en­terrar po­li­ti­ca­mente o cor­reísmo. 

Meios de co­mu­ni­cação, se­tores em­pre­sa­riais e forças po­lí­ticas con­ser­va­doras já anun­ci­aram mu­danças sobre sua ação di­ante do go­verno de Lenín Mo­reno, o que sig­ni­fi­cará o au­mento da pressão po­lí­tica e pos­si­vel­mente de ma­ni­fes­ta­ções de rua, no sen­tido de que o go­verno adote po­si­ções mais re­a­ci­o­ná­rias fun­da­men­tal­mente no âm­bito da po­lí­tica econô­mica.

Em todo caso, os se­tores da di­reita se mantêm di­vi­didos, exis­tindo duas ca­beças, até agora po­li­ti­ca­mente en­fren­tadas, que res­pondem a grupos de in­te­resses di­fe­rentes. Tanto Guil­lermo Lasso, de forma aberta, como Jaime Nebot, de ma­neira mais sutil, as­piram à pre­si­dência da Re­pú­blica no ano de 2021 ou até antes, se forem ca­pazes de forçar o fim an­te­ci­pado do man­dato mo­re­nista, um go­verno sobre o qual vi­su­a­lizam de­bi­li­dades não exis­tentes no an­te­rior.

Por­tanto, o go­verno na­ci­onal en­frenta uma si­tu­ação iné­dita a partir de agora, a qual con­sis­tirá em re­ceber de forma in­dis­cri­mi­nada ata­ques tanto da di­reita – in­clu­sive meios de co­mu­ni­cação pri­vados e lob­bies em­pre­sa­riais como nesta pre­ten­dida nova es­querda cor­reísta. Que Lenín Mo­reno e sua equipe de gestão sejam ca­pazes de fazer frente a tais pres­sões está por ser visto. De todo modo, a es­tra­tégia de um e outro lado já co­meçou, em al­guns casos até com apoio in­ter­na­ci­onal, tal como no caso de Correa, que em breve dis­porá da pla­ta­forma te­le­vi­siva Rus­sian Today (RT), um meio de co­mu­ni­cação sen­sa­ci­o­na­lista a ser­viço do apa­rato de pro­pa­ganda de Vla­dimir Putin, como fer­ra­menta de ataque ao atual go­verno.
Em 4 de fevereiro o povo equatoriano decidiu terminar com a hegemonia correísta que dominou o país nos últimos 11 anos. Dois de cada três cidadãos votaram a favor das perguntas da Consulta Popular impulsionada pelo Governo Nacional, em uma lógica de disputa auspiciada pelo ex-mandatário Rafael Correa, produzindo-se pela primeira vez na história uma rejeição cidadã majoritária aos seus postulados políticos. Até então – mediante consultas populares, plebiscitos, referendos – o ex-presidente Correa havia chegado a acumular em apenas dez anos doze vitórias consecutivas nas urnas.

Das sete perguntas impulsionadas pelo Executivo, as três primeiras tinham relação direta com o correísmo, abordando temas como:

•    A supressão de direitos políticos de condenados por corrupção, o que afeta a um número cada vez maior de altos funcionários que formaram parte do núcleo de poder do regime anterior – já há uma dezena de ex-ministros correístas que se encontram imputados em diferentes processos e este número aumentará – e que poderia terminar afetando o próprio Rafael Correa.

•    A eliminação da emenda constitucional aprovada na última fase do governo anterior, pela qual implementava a reeleição indefinida nos cargos de gestão pública a partir de 2021, e que permitia a Correa voltar a se apresentar, tal como era sua intenção, no próximo pleito presidencial;

•    E a recomposição do Conselho de Participação Cidadã e Controle Social – popularmente conhecido como o quinto poder constitucional – cujos membros designavam parte dos titulares das instituições do país, o que permitiu ao aparato correísta seguir controlando a estrutura do Estado, apesar de o ex-presidente não ocupar mais o cargo máximo.

O que foi o correísmo?

Compreender a situação atual do Equador significa entender o que foi isso que se convencionou chamar de correísmo e porque deixou de ser funcional neste momento para as elites equatorianas.

Desde 1997, a partir do governo de Abdalá Bucaram, o Equador inaugurou uma etapa de crise institucional permanente que fez com que nenhum presidente eleito desde então nas urnas conseguisse terminar o mandato.

Evidentemente, isso gerava grande instabilidade política e se tornou um fator de desequilíbrio importante a respeito de uma política de investimentos que se faziam cada vez mais urgentes e necessárias para a modernização capitalista que o país deveria empreender após a crise financeira de 1999 e 2000.

Com a entrada do presente século, a economia mundial se estabilizou, superando várias e importantes crises sofridas em diversos países do mundo – México e Venezuela (1994), Tailândia, Indonésia, Filipinas, Taiwan, Coreia do Sul (1997), Rússia (1998), Brasil (1999) ou Argentina (2001) – o que permitiu a melhora econômica internacional, com taxas de crescimento de 4% a 6% no começo da década, até a chegada da crise financeira global de 2008.

Da mesma forma, desde 2003 os preços das commodities aumentaram pelos efeitos dos furacões, como o Katrina, em instalações petroleiras; o crescimento na economia; e, particularmente, pelo auge da indústria da construção, que terminou em uma bolha especulativa cuja explosão fez os investidores voltarem suas pautas a mercados especulativos, tais como de ouro e petróleo, causando uma superdemanda artificial, o que fez o preço do óleo cru chegar ao seu ápice de 147,27 dólares o barril, em julho de 2008.

Neste contexto, o óleo cru equatoriano, que depende da cotização do petróleo norte-americano West Texas Intermediate (WTI) – que é o parâmetro de óleo cru nos EUA - e basicamente é vendido tanto pela PetroEcuador como pelas companhias privadas estrangeiras do país, também elevou notavelmente seus preços.

Sendo um país economicamente dependente de tal produto, o crescimento médio do PIB equatoriano durante a primeira década do presente século foi de 4,4%, enquanto durante os dez anos anteriores tal indicador não superou 1,8%. O anterior indica que a partir do ano 2000, a economia equatoriana começou a consolidar em grande medida apoiada pelas condições favoráveis – preço do petróleo e remessas provenientes dos migrantes – gerando-se as condições adequadas para uma modernização tardia do sistema capitalista nacional.

Neste contexto, o setor mais dinâmico do capital nacional entendeu que poderia melhorar suas possibilidades de negócio propiciando um maior nível de consumo nos mercados internos através de certa divisão do excedente petroleiro – não da distribuição da riqueza que continua em mãos de poucos – e a incorporação ao mercado de setores populares mediante o endividamento familiar e financeirização popular (democratização do consumo com base em empréstimos do setor financeiro privado). Este é o papel que fundamentalmente desempenhou o governo de Rafael Correa durante o último período de bonança econômica no Equador. 

Ao largo da primeira década do presente século, a maior fatia de participação no PIB da economia nacional foi o consumo privado, o qual representou uma média de 66,6% do PIB, convertendo-se em fator de maior contribuição ao crescimento nacional durante o período prévio à queda de preços do petróleo.

A dinamização da economia nacional tendo como motor o Estado, eixo da política econômica correísta, significou que os setores empresariais e financeiros foram os principais beneficiados em uma ação que carecia de riscos para os investimentos privados, pois se fazia base do erário público.

O respeito demonstrado pelo governo correísta à matriz de acumulação herdada da era neoliberal acarretou na inexistência da mais mínima transformação de caráter estrutural sobre os pilares que fundamentam os eixos constitutivos do poder no Equador; isso, apesar de setores historicamente esquecidos poderem se beneficiar durante o período de bonança de certas políticas assistencialistas, baseadas na transferência do excedente derivado de aprofundamento das políticas extrativistas. De quebra, significou que enquanto se ancorava em um propagandístico discurso soberanista, no interior do país se piorava cada vez mais a dependência econômica internacional dos mercados especulativos globais e se reprimarizassem substancialmente a economia global.

O modelo econômico funcionou e inclusive gozou de amplo apoio popular, milagre econômico diziam, enquanto durou o boom das commodities, indo abaixo toda a engrenagem das políticas sociais e econômicas correístas a partir da queda do preço do óleo cru em 2013.

É a partir de então, quando começam a se deteriorar certos serviços públicos, que a economia nacional se paralisa, o consumo interno cai e os indicadores de diminuição da pobreza e incremento da capacidade aquisitiva por parte dos trabalhadores passa a decair.

Em fevereiro de 2014, o governo do presidente Rafael Correa começaria a sentir o desgaste político de seu mandato, perdendo as eleições seccionais e as principais prefeituras do país para partidos de oposição. Os setores empresariais que em outro momento tinham sido beneficiados pelas políticas correístas, entendem ser hora de diminuir o gasto público, reduzir o volume do Estado e voltar a liberalizar a economia. Ante a nova falta de liquidez do Estado equatoriano, este deixou de ser funcional para seguir dinamizando a economia nacional, de modo que voltou a se colocar em questão a política de subsídios sociais.

O anterior significou incremento das mobilizações populares no conjunto do país e derivou em uma convocatória de greve/mobilização em agosto de 2015, de parte do movimento indígena e do sindicalismo não clientelista, que terminou vergonhosamente reprimida pelas forças de segurança do Estado.

O conflito entre Correa e Moreno

Em tais condições, e em meio a uma agressiva política de endividamento público que derivou na superação do volume atual de dívida externa, com sobras, dos níveis herdados da época neoliberal, o então mandatário equatoriano decidiu não se apresentar às eleições de 2017, mas deixou aberta a porta para uma nova postulação em 2021.

Estrategicamente, o correísmo considerou que era melhor outro mandatário a proceder as políticas econômicas de ajuste já inapelavelmente necessárias ao país, permitindo assim uma regeneração da imagem de Rafael Correa, que estrategicamente voltaria em 2021 para “salvar” o Equador dos programas de ajuste, frutos de um déficit bruto, galopante e insustentável. Assim, em dezembro de 2015, a bancada oficialista aprovou forçosamente uma reforma constitucional que permitia a reeleição do mandatário para o período imediatamente posterior a uma legislatura marcada pela crise econômica herdada da gestão de saída.

Ainda assim, a estratégia para a volta ao poder de Correa passava pela necessidade de seguir controlando o aparato de Estado durante o atual período, bloqueando qualquer possibilidade de fiscalização e auditorias internas que pudesse se fazer sobre um modelo de gestão pública altamente corrupto, que significou durante dez anos a submissão de todos os poderes e órgãos de controle do Estado pelo Executivo.

Isso implicou na necessidade de a Aliança PAIS ganhar em 2017, ficando a maior parte das instituições públicas em mãos de ex-funcionários de provada proximidade com o ex-presidente. A única figura com a qual a Aliança PAIS contava para ganhar tais eleições era Lenin Moreno, que por suas funções de enviado especial do Secretário Geral da ONU sobre a Incapacidade e Acessibilidade residia em Genebra desde 2014, o que implicava no fato de ter se mantido à margem da degradação correísta dos últimos anos. 

Devemos nos remeter mais atrás no passado histórico do Equador para encontrar um mandatário que depois de dez anos de gestão continuada do poder terminou seu período com certo respaldo político – apesar da decadência dos últimos anos – como era o caso de Rafael Correa. Apesar da polarização social criada ao redor de sua figura, Correa abandonou a poltrona presidencial ainda sob importante apoio social, fundamentalmente entre os setores populares, os quais reconheciam o impulso a projetos sociais de caráter assistencialista e o investimento realizado durante a última década no âmbito da infraestrutura e modernização do Estado. Ainda assim, foi uma grande concatenação acelerada de erros políticos estratégicos que fizeram com que o ex-mandatário perdesse a hegemonia política ainda mantida no país.

Com a chegada da nova administração de Lenin, o correísmo deixava em postos estratégicos grande parte de sua equipe anterior de gestão. Isso significava que mantinha o controle sobre enorme e desmedido aparato de propaganda governamental, articulado na década passada, tal como se fazia a respeito do controle sobre a produção – sobre a qual o Estado equatoriano tinha notável incidência durante os últimos dez anos – no altar das responsabilidades estabelecidas em torno da figura do vice-presidente da República, Jorge Glas, o principal homem de confiança de Rafael Correa no novo gabinete, que se mantinha como responsável da mudança de matriz produtiva e investimento em megaprojetos.

Mas ao tempo, o correísmo mantinha o controle também sobre a frente política do governo através de figuras como a primeira titular da Secretaria Nacional de Gestão Pública (Paola Pabón) e do conselheiro presidencial (Ricardo Patiño), o principal operador político dentro da Aliança PAIS durante a gestão anterior, tal como fazia a respeito da Assembleia Nacional – o legislativo equatoriano – através de seus operadores na bancada majoritária da Aliança PAIS.

Não contente, Rafael Correa controlava também, mediante o Conselho de Participação Cidadã e Controle Social, os órgãos de fiscalização e controle do aparato de Estado, cuja designação de responsável respondia integralmente a personalidades afinadas ao ex-presidente. Isso ocorreu em instituições como o Conselho Nacional Eleitoral, a Corte Constitucional, a Controladoria Geral do Estado, a Procuradoria Geral do Estado, o Tribunal Contencioso Eleitoral, o Conselho do Judiciário ou a Defensoria do Povo, entre outros.

Apesar das tensões entre Lenin Moreno e a ala dura correísta serem palpáveis, desde esse mesmo momento, da investidura do atual presidente da República, em 24 de maio passado, momento em que a nova administração descobriu o estado real das finanças públicas, foi a entrega da sede social da CONAIE – estrutura organizativa do movimento indígena e organização social mais importante do país – e o anúncio em julho passado dos primeiros indultos de líderes populares criminalizados durante o regime anterior que geraram reações desqualificadoras de Rafael Correa sobre seu sucessor.

A partir daí os operadores correístas localizados em funções de direção dos distintos meios públicos começam a articular uma campanha contra a imagem do presidente Moreno, aduzindo que o país voltava às políticas do passado e que se estava produzindo uma divisão de poderes com as elites oligárquicas, o que significou que a nova administração morenista nomeasse novos responsáveis em tais meios de comunicação e órgãos. Desta maneira, o ex-presidente Correa perdia o controle do imenso aparato de propaganda e comunicação cuja criação havia sido auspiciada por ele mesmo.

Um mês depois, em inícios de agosto e já com a água no pescoço pelas investigações judiciais que se faziam a respeito da trama da Odebrecht no Equador, o então vice-presidente Jorge Glas – que fora também o segundo mandatário durante a última fase da era Correa – emitia uma extensa carta pública contra o atual chefe de Estado, acusando-o de convergir com os setores politicamente mais reacionários do país. A ruptura de relações entre o presidente Moreno e Jorge Glas acarretou na inabilitação do cargo do segundo, o que trouxe a perda de controle por parte de Rafael Correa sobre o aparato produtivo e os investimentos nos megaprojetos implementados no país. Meses mais tarde e fruto de investigações judiciais anticorrupção, Jorge Glas terminaria ocupando uma cela na prisão número 4 de Quito e destituído do cargo. O correísmo perdia, portanto, também sua incidência no aparato produtivo.

Poucos dias depois do exabrupto vice-presidencial e em vias de solucionar este conflito, o presidente Moreno enviaria a Bruxelas – lugar de residência atual de Correa – os principais operadores políticos de governo, todos eles vinculados durante a gestão anterior do ex-mandatário, com o fim de reconduzir de forma amigável as relações com o ex-presidente. Para surpresa do Executivo, depois da volta a Quito da dita delegação, suas principais cabeças – Ricardo Patiño, Paola Pabón e Virgílio Hernandez – anunciavam em coletiva de imprensa a renúncia a seus cargos no Executivo. Desta maneira, Rafael Correa perdia o controle da frente política governamental.

Destruídos todos os canais de comunicação entre o correísmo e o governo morenista, o presidente Moreno anunciaria nos primeiros meses de outubro passado a convocação de uma Consulta Popular onde algumas perguntas tinham a ver com uma lógica de reforma institucional pós-caudilhista que levasse o país a um caminho de superação do regime anterior. Isso terminaria de dinamitar internamente o partido do governo. Os setores afins ao ex-mandatário determinaram a expulsão, de forma irregular, de Lenin Moreno da Aliança PAIS convocando sem legitimidade jurídica uma convenção nacional da organização política com escasso êxito de adesão. O fato anterior acarretou, depois de uma decisão do Tribunal Contencioso Eleitoral, na perda do correísmo do controle do próprio partido. 

O último episódio deste mar de desacertos correístas se deu já em janeiro do presente ano, quando Correa chamou à desfiliação seus seguidores de Aliança PAIS, o que implicou também na perda de controle do legislativo, ficando com apenas 29 parlamentares, enquanto os outros 45 se alinharam a Lenín Moreno.

Em suma, apesar de ser difícil encontrar um ex-presidente que depois de dez anos de gestão mantivesse o nível de apoio de Correa, também é difícil encontrar algum que tenha demonstrado tal capacidade para dilapidá-lo tão rapidamente.

Consulta e pós-consulta

Foi assim que se chegou a 4 de fevereiro, momento em que o correísmo saboreou pela primeira vez uma derrota eleitoral. No fundo, assistimos algo que foi mais além da realização política de uma realidade indiscutível no Equador: o correísmo nunca construiu uma força social e política afim, mas utilizou o aparato de Estado operando sob lógicas clientelistas em favor de um partido de governo e da construção da imagem midiática de Rafael Correa como um grande caudilho populista. Isso implicou em que, após o abandono da cadeira presidencial e da recusa de seus caprichos nas instituições do Estado, seu apoio político diminuísse notavelmente.

A sociedade equatoriana votou pela conformação de um regime de transição que permitia superar a herança implantada pelo governo anterior, gerando as condições para a construção de um novo cenário político após o fim da hegemonia correísta. Foi cortado o cordão umbilical que vinculava o novo governo ao anterior, o que desabilita a narrativa correísta de que Lenin Moreno ocupa a presidência do país graças ao endosso de votos derivado da figura de Rafael Correa.

Após a consulta o país entra em uma nova fase política. Por um lado, o presidente Lenin Moreno ganhou momentaneamente sua disputa com o antecessor, apesar de Correa ainda manter um terço do eleitorado equatoriano. Correa e seus seguidores, após a desfiliação da Aliança PAIS, estão obrigados a conformar um novo movimento político nacional, apesar de a popularidade de seu líder estar em decadência. Correa, consciente de que o setor de antigos líderes da Aliança PAIS que o acompanham nesta nova aventura acrescentam realmente pouco, dada a má imagem diante da sociedade, está obrigado a liderar pessoalmente a construção do novo partido. Será uma tarefa urgente e nada fácil para o neocorreísmo criar uma nova figura política que tenha chances de disputar a presidência da República em 2021.

Por sua parte, a vontade de tal tendência é ocupar o espaço político da esquerda equatoriana, algo que já fizeram em 2006, apesar dos desencontros entre seu discurso e sua prática. Conseguir tal objetivo passa por bloquear qualquer possibilidade de construção de alternativas políticas no campo popular, algo urgentemente necessário para um país que sofre de uma esquerda cujo discurso político se encontra sem capacidade de sintonia com a sociedade, onde não existe geração de novas lideranças, e que se vê carente de construir uma proposta convincente para um novo modelo de sociedade e país.

Apesar de ser certo que a esquerda política e social equatoriana foi fracionada, em muitos casos cooptada e até perseguida pelo regime correísta durante os últimos dez anos, também é certo que existe uma incapacidade política por parte de sua endogâmica dirigência para se reinventar e reposicionar, com um discurso adaptado ao momento atual do país. O mero fato de que grande parte de tal esquerda apoiou em sua lógica anticorreísta a candidatura do conservador Guillermo Lasso no segundo turno das últimas eleições presidenciais é uma demonstração palpável de sua desorientação política e descrédito do que atualmente gozam na cidadania equatoriana. Nas fileiras conservadoras, as forças políticas que até o momento decidiram não fazer oposição política contumaz ao atual governo mudaram de atitude.

A proximidade de eleições seccionais, daqui um ano, faz as organizações políticas da direita voltarem a assumir protagonismo depois de uma aliança antinatural que permitiu a sensibilidades ideológicas muito diferentes um pacto de não agressão em troca de trabalharem, todos juntos, pelo Sim nesta consulta, em nome da finalidade de enterrar politicamente o correísmo. 

Meios de comunicação, setores empresariais e forças políticas conservadoras já anunciaram mudanças sobre sua ação diante do governo de Lenín Moreno, o que significará o aumento da pressão política e possivelmente de manifestações de rua, no sentido de que o governo adote posições mais reacionárias fundamentalmente no âmbito da política econômica.

Em todo caso, os setores da direita se mantêm divididos, existindo duas cabeças, até agora politicamente enfrentadas, que respondem a grupos de interesses diferentes. Tanto Guillermo Lasso, de forma aberta, como Jaime Nebot, de maneira mais sutil, aspiram à presidência da República no ano de 2021 ou até antes, se forem capazes de forçar o fim antecipado do mandato morenista, um governo sobre o qual visualizam debilidades não existentes no anterior.

Portanto, o governo nacional enfrenta uma situação inédita a partir de agora, a qual consistirá em receber de forma indiscriminada ataques tanto da direita – inclusive meios de comunicação privados e lobbies empresariais como nesta pretendida nova esquerda correísta. Que Lenín Moreno e sua equipe de gestão sejam capazes de fazer frente a tais pressões está por ser visto. De todo modo, a estratégia de um e outro lado já começou, em alguns casos até com apoio internacional, tal como no caso de Correa, que em breve disporá da plataforma televisiva Russian Today (RT), um meio de comunicação sensacionalista a serviço do aparato de propaganda de Vladimir Putin, como ferramenta de ataque ao atual governo.


Em 4 de fevereiro o povo equatoriano decidiu terminar com a hegemonia correísta que dominou o país nos últimos 11 anos. Dois de cada três cidadãos votaram a favor das perguntas da Consulta Popular impulsionada pelo Governo Nacional, em uma lógica de disputa auspiciada pelo ex-mandatário Rafael Correa, produzindo-se pela primeira vez na história uma rejeição cidadã majoritária aos seus postulados políticos. Até então – mediante consultas populares, plebiscitos, referendos – o ex-presidente Correa havia chegado a acumular em apenas dez anos doze vitórias consecutivas nas urnas.

Das sete perguntas impulsionadas pelo Executivo, as três primeiras tinham relação direta com o correísmo, abordando temas como:

•    A supressão de direitos políticos de condenados por corrupção, o que afeta a um número cada vez maior de altos funcionários que formaram parte do núcleo de poder do regime anterior – já há uma dezena de ex-ministros correístas que se encontram imputados em diferentes processos e este número aumentará – e que poderia terminar afetando o próprio Rafael Correa.

•    A eliminação da emenda constitucional aprovada na última fase do governo anterior, pela qual implementava a reeleição indefinida nos cargos de gestão pública a partir de 2021, e que permitia a Correa voltar a se apresentar, tal como era sua intenção, no próximo pleito presidencial;

•    E a recomposição do Conselho de Participação Cidadã e Controle Social – popularmente conhecido como o quinto poder constitucional – cujos membros designavam parte dos titulares das instituições do país, o que permitiu ao aparato correísta seguir controlando a estrutura do Estado, apesar de o ex-presidente não ocupar mais o cargo máximo.

O que foi o correísmo?

Compreender a situação atual do Equador significa entender o que foi isso que se convencionou chamar de correísmo e porque deixou de ser funcional neste momento para as elites equatorianas.

Desde 1997, a partir do governo de Abdalá Bucaram, o Equador inaugurou uma etapa de crise institucional permanente que fez com que nenhum presidente eleito desde então nas urnas conseguisse terminar o mandato.

Evidentemente, isso gerava grande instabilidade política e se tornou um fator de desequilíbrio importante a respeito de uma política de investimentos que se faziam cada vez mais urgentes e necessárias para a modernização capitalista que o país deveria empreender após a crise financeira de 1999 e 2000.

Com a entrada do presente século, a economia mundial se estabilizou, superando várias e importantes crises sofridas em diversos países do mundo – México e Venezuela (1994), Tailândia, Indonésia, Filipinas, Taiwan, Coreia do Sul (1997), Rússia (1998), Brasil (1999) ou Argentina (2001) – o que permitiu a melhora econômica internacional, com taxas de crescimento de 4% a 6% no começo da década, até a chegada da crise financeira global de 2008.

Da mesma forma, desde 2003 os preços das commodities aumentaram pelos efeitos dos furacões, como o Katrina, em instalações petroleiras; o crescimento na economia; e, particularmente, pelo auge da indústria da construção, que terminou em uma bolha especulativa cuja explosão fez os investidores voltarem suas pautas a mercados especulativos, tais como de ouro e petróleo, causando uma superdemanda artificial, o que fez o preço do óleo cru chegar ao seu ápice de 147,27 dólares o barril, em julho de 2008.

Neste contexto, o óleo cru equatoriano, que depende da cotização do petróleo norte-americano West Texas Intermediate (WTI) – que é o parâmetro de óleo cru nos EUA - e basicamente é vendido tanto pela PetroEcuador como pelas companhias privadas estrangeiras do país, também elevou notavelmente seus preços.

Sendo um país economicamente dependente de tal produto, o crescimento médio do PIB equatoriano durante a primeira década do presente século foi de 4,4%, enquanto durante os dez anos anteriores tal indicador não superou 1,8%. O anterior indica que a partir do ano 2000, a economia equatoriana começou a consolidar em grande medida apoiada pelas condições favoráveis – preço do petróleo e remessas provenientes dos migrantes – gerando-se as condições adequadas para uma modernização tardia do sistema capitalista nacional.

Neste contexto, o setor mais dinâmico do capital nacional entendeu que poderia melhorar suas possibilidades de negócio propiciando um maior nível de consumo nos mercados internos através de certa divisão do excedente petroleiro – não da distribuição da riqueza que continua em mãos de poucos – e a incorporação ao mercado de setores populares mediante o endividamento familiar e financeirização popular (democratização do consumo com base em empréstimos do setor financeiro privado). Este é o papel que fundamentalmente desempenhou o governo de Rafael Correa durante o último período de bonança econômica no Equador. 

Ao largo da primeira década do presente século, a maior fatia de participação no PIB da economia nacional foi o consumo privado, o qual representou uma média de 66,6% do PIB, convertendo-se em fator de maior contribuição ao crescimento nacional durante o período prévio à queda de preços do petróleo.

A dinamização da economia nacional tendo como motor o Estado, eixo da política econômica correísta, significou que os setores empresariais e financeiros foram os principais beneficiados em uma ação que carecia de riscos para os investimentos privados, pois se fazia base do erário público.

O respeito demonstrado pelo governo correísta à matriz de acumulação herdada da era neoliberal acarretou na inexistência da mais mínima transformação de caráter estrutural sobre os pilares que fundamentam os eixos constitutivos do poder no Equador; isso, apesar de setores historicamente esquecidos poderem se beneficiar durante o período de bonança de certas políticas assistencialistas, baseadas na transferência do excedente derivado de aprofundamento das políticas extrativistas. De quebra, significou que enquanto se ancorava em um propagandístico discurso soberanista, no interior do país se piorava cada vez mais a dependência econômica internacional dos mercados especulativos globais e se reprimarizassem substancialmente a economia global.

O modelo econômico funcionou e inclusive gozou de amplo apoio popular, milagre econômico diziam, enquanto durou o boom das commodities, indo abaixo toda a engrenagem das políticas sociais e econômicas correístas a partir da queda do preço do óleo cru em 2013.

É a partir de então, quando começam a se deteriorar certos serviços públicos, que a economia nacional se paralisa, o consumo interno cai e os indicadores de diminuição da pobreza e incremento da capacidade aquisitiva por parte dos trabalhadores passa a decair.

Em fevereiro de 2014, o governo do presidente Rafael Correa começaria a sentir o desgaste político de seu mandato, perdendo as eleições seccionais e as principais prefeituras do país para partidos de oposição. Os setores empresariais que em outro momento tinham sido beneficiados pelas políticas correístas, entendem ser hora de diminuir o gasto público, reduzir o volume do Estado e voltar a liberalizar a economia. Ante a nova falta de liquidez do Estado equatoriano, este deixou de ser funcional para seguir dinamizando a economia nacional, de modo que voltou a se colocar em questão a política de subsídios sociais.

O anterior significou incremento das mobilizações populares no conjunto do país e derivou em uma convocatória de greve/mobilização em agosto de 2015, de parte do movimento indígena e do sindicalismo não clientelista, que terminou vergonhosamente reprimida pelas forças de segurança do Estado.

O conflito entre Correa e Moreno

Em tais condições, e em meio a uma agressiva política de endividamento público que derivou na superação do volume atual de dívida externa, com sobras, dos níveis herdados da época neoliberal, o então mandatário equatoriano decidiu não se apresentar às eleições de 2017, mas deixou aberta a porta para uma nova postulação em 2021.

Estrategicamente, o correísmo considerou que era melhor outro mandatário a proceder as políticas econômicas de ajuste já inapelavelmente necessárias ao país, permitindo assim uma regeneração da imagem de Rafael Correa, que estrategicamente voltaria em 2021 para “salvar” o Equador dos programas de ajuste, frutos de um déficit bruto, galopante e insustentável. Assim, em dezembro de 2015, a bancada oficialista aprovou forçosamente uma reforma constitucional que permitia a reeleição do mandatário para o período imediatamente posterior a uma legislatura marcada pela crise econômica herdada da gestão de saída.

Ainda assim, a estratégia para a volta ao poder de Correa passava pela necessidade de seguir controlando o aparato de Estado durante o atual período, bloqueando qualquer possibilidade de fiscalização e auditorias internas que pudesse se fazer sobre um modelo de gestão pública altamente corrupto, que significou durante dez anos a submissão de todos os poderes e órgãos de controle do Estado pelo Executivo.

Isso implicou na necessidade de a Aliança PAIS ganhar em 2017, ficando a maior parte das instituições públicas em mãos de ex-funcionários de provada proximidade com o ex-presidente. A única figura com a qual a Aliança PAIS contava para ganhar tais eleições era Lenin Moreno, que por suas funções de enviado especial do Secretário Geral da ONU sobre a Incapacidade e Acessibilidade residia em Genebra desde 2014, o que implicava no fato de ter se mantido à margem da degradação correísta dos últimos anos. 

Devemos nos remeter mais atrás no passado histórico do Equador para encontrar um mandatário que depois de dez anos de gestão continuada do poder terminou seu período com certo respaldo político – apesar da decadência dos últimos anos – como era o caso de Rafael Correa. Apesar da polarização social criada ao redor de sua figura, Correa abandonou a poltrona presidencial ainda sob importante apoio social, fundamentalmente entre os setores populares, os quais reconheciam o impulso a projetos sociais de caráter assistencialista e o investimento realizado durante a última década no âmbito da infraestrutura e modernização do Estado. Ainda assim, foi uma grande concatenação acelerada de erros políticos estratégicos que fizeram com que o ex-mandatário perdesse a hegemonia política ainda mantida no país.

Com a chegada da nova administração de Lenin, o correísmo deixava em postos estratégicos grande parte de sua equipe anterior de gestão. Isso significava que mantinha o controle sobre enorme e desmedido aparato de propaganda governamental, articulado na década passada, tal como se fazia a respeito do controle sobre a produção – sobre a qual o Estado equatoriano tinha notável incidência durante os últimos dez anos – no altar das responsabilidades estabelecidas em torno da figura do vice-presidente da República, Jorge Glas, o principal homem de confiança de Rafael Correa no novo gabinete, que se mantinha como responsável da mudança de matriz produtiva e investimento em megaprojetos.

Mas ao tempo, o correísmo mantinha o controle também sobre a frente política do governo através de figuras como a primeira titular da Secretaria Nacional de Gestão Pública (Paola Pabón) e do conselheiro presidencial (Ricardo Patiño), o principal operador político dentro da Aliança PAIS durante a gestão anterior, tal como fazia a respeito da Assembleia Nacional – o legislativo equatoriano – através de seus operadores na bancada majoritária da Aliança PAIS.

Não contente, Rafael Correa controlava também, mediante o Conselho de Participação Cidadã e Controle Social, os órgãos de fiscalização e controle do aparato de Estado, cuja designação de responsável respondia integralmente a personalidades afinadas ao ex-presidente. Isso ocorreu em instituições como o Conselho Nacional Eleitoral, a Corte Constitucional, a Controladoria Geral do Estado, a Procuradoria Geral do Estado, o Tribunal Contencioso Eleitoral, o Conselho do Judiciário ou a Defensoria do Povo, entre outros.

Apesar das tensões entre Lenin Moreno e a ala dura correísta serem palpáveis, desde esse mesmo momento, da investidura do atual presidente da República, em 24 de maio passado, momento em que a nova administração descobriu o estado real das finanças públicas, foi a entrega da sede social da CONAIE – estrutura organizativa do movimento indígena e organização social mais importante do país – e o anúncio em julho passado dos primeiros indultos de líderes populares criminalizados durante o regime anterior que geraram reações desqualificadoras de Rafael Correa sobre seu sucessor.

A partir daí os operadores correístas localizados em funções de direção dos distintos meios públicos começam a articular uma campanha contra a imagem do presidente Moreno, aduzindo que o país voltava às políticas do passado e que se estava produzindo uma divisão de poderes com as elites oligárquicas, o que significou que a nova administração morenista nomeasse novos responsáveis em tais meios de comunicação e órgãos. Desta maneira, o ex-presidente Correa perdia o controle do imenso aparato de propaganda e comunicação cuja criação havia sido auspiciada por ele mesmo.

Um mês depois, em inícios de agosto e já com a água no pescoço pelas investigações judiciais que se faziam a respeito da trama da Odebrecht no Equador, o então vice-presidente Jorge Glas – que fora também o segundo mandatário durante a última fase da era Correa – emitia uma extensa carta pública contra o atual chefe de Estado, acusando-o de convergir com os setores politicamente mais reacionários do país. A ruptura de relações entre o presidente Moreno e Jorge Glas acarretou na inabilitação do cargo do segundo, o que trouxe a perda de controle por parte de Rafael Correa sobre o aparato produtivo e os investimentos nos megaprojetos implementados no país. Meses mais tarde e fruto de investigações judiciais anticorrupção, Jorge Glas terminaria ocupando uma cela na prisão número 4 de Quito e destituído do cargo. O correísmo perdia, portanto, também sua incidência no aparato produtivo.

Poucos dias depois do exabrupto vice-presidencial e em vias de solucionar este conflito, o presidente Moreno enviaria a Bruxelas – lugar de residência atual de Correa – os principais operadores políticos de governo, todos eles vinculados durante a gestão anterior do ex-mandatário, com o fim de reconduzir de forma amigável as relações com o ex-presidente. Para surpresa do Executivo, depois da volta a Quito da dita delegação, suas principais cabeças – Ricardo Patiño, Paola Pabón e Virgílio Hernandez – anunciavam em coletiva de imprensa a renúncia a seus cargos no Executivo. Desta maneira, Rafael Correa perdia o controle da frente política governamental.

Destruídos todos os canais de comunicação entre o correísmo e o governo morenista, o presidente Moreno anunciaria nos primeiros meses de outubro passado a convocação de uma Consulta Popular onde algumas perguntas tinham a ver com uma lógica de reforma institucional pós-caudilhista que levasse o país a um caminho de superação do regime anterior. Isso terminaria de dinamitar internamente o partido do governo. Os setores afins ao ex-mandatário determinaram a expulsão, de forma irregular, de Lenin Moreno da Aliança PAIS convocando sem legitimidade jurídica uma convenção nacional da organização política com escasso êxito de adesão. O fato anterior acarretou, depois de uma decisão do Tribunal Contencioso Eleitoral, na perda do correísmo do controle do próprio partido. 

O último episódio deste mar de desacertos correístas se deu já em janeiro do presente ano, quando Correa chamou à desfiliação seus seguidores de Aliança PAIS, o que implicou também na perda de controle do legislativo, ficando com apenas 29 parlamentares, enquanto os outros 45 se alinharam a Lenín Moreno.

Em suma, apesar de ser difícil encontrar um ex-presidente que depois de dez anos de gestão mantivesse o nível de apoio de Correa, também é difícil encontrar algum que tenha demonstrado tal capacidade para dilapidá-lo tão rapidamente.

Consulta e pós-consulta

Foi assim que se chegou a 4 de fevereiro, momento em que o correísmo saboreou pela primeira vez uma derrota eleitoral. No fundo, assistimos algo que foi mais além da realização política de uma realidade indiscutível no Equador: o correísmo nunca construiu uma força social e política afim, mas utilizou o aparato de Estado operando sob lógicas clientelistas em favor de um partido de governo e da construção da imagem midiática de Rafael Correa como um grande caudilho populista. Isso implicou em que, após o abandono da cadeira presidencial e da recusa de seus caprichos nas instituições do Estado, seu apoio político diminuísse notavelmente.

A sociedade equatoriana votou pela conformação de um regime de transição que permitia superar a herança implantada pelo governo anterior, gerando as condições para a construção de um novo cenário político após o fim da hegemonia correísta. Foi cortado o cordão umbilical que vinculava o novo governo ao anterior, o que desabilita a narrativa correísta de que Lenin Moreno ocupa a presidência do país graças ao endosso de votos derivado da figura de Rafael Correa.

Após a consulta o país entra em uma nova fase política. Por um lado, o presidente Lenin Moreno ganhou momentaneamente sua disputa com o antecessor, apesar de Correa ainda manter um terço do eleitorado equatoriano. Correa e seus seguidores, após a desfiliação da Aliança PAIS, estão obrigados a conformar um novo movimento político nacional, apesar de a popularidade de seu líder estar em decadência. Correa, consciente de que o setor de antigos líderes da Aliança PAIS que o acompanham nesta nova aventura acrescentam realmente pouco, dada a má imagem diante da sociedade, está obrigado a liderar pessoalmente a construção do novo partido. Será uma tarefa urgente e nada fácil para o neocorreísmo criar uma nova figura política que tenha chances de disputar a presidência da República em 2021.

Por sua parte, a vontade de tal tendência é ocupar o espaço político da esquerda equatoriana, algo que já fizeram em 2006, apesar dos desencontros entre seu discurso e sua prática. Conseguir tal objetivo passa por bloquear qualquer possibilidade de construção de alternativas políticas no campo popular, algo urgentemente necessário para um país que sofre de uma esquerda cujo discurso político se encontra sem capacidade de sintonia com a sociedade, onde não existe geração de novas lideranças, e que se vê carente de construir uma proposta convincente para um novo modelo de sociedade e país.

Apesar de ser certo que a esquerda política e social equatoriana foi fracionada, em muitos casos cooptada e até perseguida pelo regime correísta durante os últimos dez anos, também é certo que existe uma incapacidade política por parte de sua endogâmica dirigência para se reinventar e reposicionar, com um discurso adaptado ao momento atual do país. O mero fato de que grande parte de tal esquerda apoiou em sua lógica anticorreísta a candidatura do conservador Guillermo Lasso no segundo turno das últimas eleições presidenciais é uma demonstração palpável de sua desorientação política e descrédito do que atualmente gozam na cidadania equatoriana. Nas fileiras conservadoras, as forças políticas que até o momento decidiram não fazer oposição política contumaz ao atual governo mudaram de atitude.

A proximidade de eleições seccionais, daqui um ano, faz as organizações políticas da direita voltarem a assumir protagonismo depois de uma aliança antinatural que permitiu a sensibilidades ideológicas muito diferentes um pacto de não agressão em troca de trabalharem, todos juntos, pelo Sim nesta consulta, em nome da finalidade de enterrar politicamente o correísmo. 

Meios de comunicação, setores empresariais e forças políticas conservadoras já anunciaram mudanças sobre sua ação diante do governo de Lenín Moreno, o que significará o aumento da pressão política e possivelmente de manifestações de rua, no sentido de que o governo adote posições mais reacionárias fundamentalmente no âmbito da política econômica.

Em todo caso, os setores da direita se mantêm divididos, existindo duas cabeças, até agora politicamente enfrentadas, que respondem a grupos de interesses diferentes. Tanto Guillermo Lasso, de forma aberta, como Jaime Nebot, de maneira mais sutil, aspiram à presidência da República no ano de 2021 ou até antes, se forem capazes de forçar o fim antecipado do mandato morenista, um governo sobre o qual visualizam debilidades não existentes no anterior.

Portanto, o governo nacional enfrenta uma situação inédita a partir de agora, a qual consistirá em receber de forma indiscriminada ataques tanto da direita – inclusive meios de comunicação privados e lobbies empresariais como nesta pretendida nova esquerda correísta. Que Lenín Moreno e sua equipe de gestão sejam capazes de fazer frente a tais pressões está por ser visto. De todo modo, a estratégia de um e outro lado já começou, em alguns casos até com apoio internacional, tal como no caso de Correa, que em breve disporá da plataforma televisiva Russian Today (RT), um meio de comunicação sensacionalista a serviço do aparato de propaganda de Vladimir Putin, como ferramenta de ataque ao atual governo.
Em 4 de fevereiro o povo equatoriano decidiu terminar com a hegemonia correísta que dominou o país nos últimos 11 anos. Dois de cada três cidadãos votaram a favor das perguntas da Consulta Popular impulsionada pelo Governo Nacional, em uma lógica de disputa auspiciada pelo ex-mandatário Rafael Correa, produzindo-se pela primeira vez na história uma rejeição cidadã majoritária aos seus postulados políticos. Até então – mediante consultas populares, plebiscitos, referendos – o ex-presidente Correa havia chegado a acumular em apenas dez anos doze vitórias consecutivas nas urnas.

Das sete perguntas impulsionadas pelo Executivo, as três primeiras tinham relação direta com o correísmo, abordando temas como:

•    A supressão de direitos políticos de condenados por corrupção, o que afeta a um número cada vez maior de altos funcionários que formaram parte do núcleo de poder do regime anterior – já há uma dezena de ex-ministros correístas que se encontram imputados em diferentes processos e este número aumentará – e que poderia terminar afetando o próprio Rafael Correa.

•    A eliminação da emenda constitucional aprovada na última fase do governo anterior, pela qual implementava a reeleição indefinida nos cargos de gestão pública a partir de 2021, e que permitia a Correa voltar a se apresentar, tal como era sua intenção, no próximo pleito presidencial;

•    E a recomposição do Conselho de Participação Cidadã e Controle Social – popularmente conhecido como o quinto poder constitucional – cujos membros designavam parte dos titulares das instituições do país, o que permitiu ao aparato correísta seguir controlando a estrutura do Estado, apesar de o ex-presidente não ocupar mais o cargo máximo.

O que foi o correísmo?

Compreender a situação atual do Equador significa entender o que foi isso que se convencionou chamar de correísmo e porque deixou de ser funcional neste momento para as elites equatorianas.

Desde 1997, a partir do governo de Abdalá Bucaram, o Equador inaugurou uma etapa de crise institucional permanente que fez com que nenhum presidente eleito desde então nas urnas conseguisse terminar o mandato.

Evidentemente, isso gerava grande instabilidade política e se tornou um fator de desequilíbrio importante a respeito de uma política de investimentos que se faziam cada vez mais urgentes e necessárias para a modernização capitalista que o país deveria empreender após a crise financeira de 1999 e 2000.

Com a entrada do presente século, a economia mundial se estabilizou, superando várias e importantes crises sofridas em diversos países do mundo – México e Venezuela (1994), Tailândia, Indonésia, Filipinas, Taiwan, Coreia do Sul (1997), Rússia (1998), Brasil (1999) ou Argentina (2001) – o que permitiu a melhora econômica internacional, com taxas de crescimento de 4% a 6% no começo da década, até a chegada da crise financeira global de 2008.

Da mesma forma, desde 2003 os preços das commodities aumentaram pelos efeitos dos furacões, como o Katrina, em instalações petroleiras; o crescimento na economia; e, particularmente, pelo auge da indústria da construção, que terminou em uma bolha especulativa cuja explosão fez os investidores voltarem suas pautas a mercados especulativos, tais como de ouro e petróleo, causando uma superdemanda artificial, o que fez o preço do óleo cru chegar ao seu ápice de 147,27 dólares o barril, em julho de 2008.

Neste contexto, o óleo cru equatoriano, que depende da cotização do petróleo norte-americano West Texas Intermediate (WTI) – que é o parâmetro de óleo cru nos EUA - e basicamente é vendido tanto pela PetroEcuador como pelas companhias privadas estrangeiras do país, também elevou notavelmente seus preços.

Sendo um país economicamente dependente de tal produto, o crescimento médio do PIB equatoriano durante a primeira década do presente século foi de 4,4%, enquanto durante os dez anos anteriores tal indicador não superou 1,8%. O anterior indica que a partir do ano 2000, a economia equatoriana começou a consolidar em grande medida apoiada pelas condições favoráveis – preço do petróleo e remessas provenientes dos migrantes – gerando-se as condições adequadas para uma modernização tardia do sistema capitalista nacional.

Neste contexto, o setor mais dinâmico do capital nacional entendeu que poderia melhorar suas possibilidades de negócio propiciando um maior nível de consumo nos mercados internos através de certa divisão do excedente petroleiro – não da distribuição da riqueza que continua em mãos de poucos – e a incorporação ao mercado de setores populares mediante o endividamento familiar e financeirização popular (democratização do consumo com base em empréstimos do setor financeiro privado). Este é o papel que fundamentalmente desempenhou o governo de Rafael Correa durante o último período de bonança econômica no Equador. 

Ao largo da primeira década do presente século, a maior fatia de participação no PIB da economia nacional foi o consumo privado, o qual representou uma média de 66,6% do PIB, convertendo-se em fator de maior contribuição ao crescimento nacional durante o período prévio à queda de preços do petróleo.

A dinamização da economia nacional tendo como motor o Estado, eixo da política econômica correísta, significou que os setores empresariais e financeiros foram os principais beneficiados em uma ação que carecia de riscos para os investimentos privados, pois se fazia base do erário público.

O respeito demonstrado pelo governo correísta à matriz de acumulação herdada da era neoliberal acarretou na inexistência da mais mínima transformação de caráter estrutural sobre os pilares que fundamentam os eixos constitutivos do poder no Equador; isso, apesar de setores historicamente esquecidos poderem se beneficiar durante o período de bonança de certas políticas assistencialistas, baseadas na transferência do excedente derivado de aprofundamento das políticas extrativistas. De quebra, significou que enquanto se ancorava em um propagandístico discurso soberanista, no interior do país se piorava cada vez mais a dependência econômica internacional dos mercados especulativos globais e se reprimarizassem substancialmente a economia global.

O modelo econômico funcionou e inclusive gozou de amplo apoio popular, milagre econômico diziam, enquanto durou o boom das commodities, indo abaixo toda a engrenagem das políticas sociais e econômicas correístas a partir da queda do preço do óleo cru em 2013.

É a partir de então, quando começam a se deteriorar certos serviços públicos, que a economia nacional se paralisa, o consumo interno cai e os indicadores de diminuição da pobreza e incremento da capacidade aquisitiva por parte dos trabalhadores passa a decair.

Em fevereiro de 2014, o governo do presidente Rafael Correa começaria a sentir o desgaste político de seu mandato, perdendo as eleições seccionais e as principais prefeituras do país para partidos de oposição. Os setores empresariais que em outro momento tinham sido beneficiados pelas políticas correístas, entendem ser hora de diminuir o gasto público, reduzir o volume do Estado e voltar a liberalizar a economia. Ante a nova falta de liquidez do Estado equatoriano, este deixou de ser funcional para seguir dinamizando a economia nacional, de modo que voltou a se colocar em questão a política de subsídios sociais.

O anterior significou incremento das mobilizações populares no conjunto do país e derivou em uma convocatória de greve/mobilização em agosto de 2015, de parte do movimento indígena e do sindicalismo não clientelista, que terminou vergonhosamente reprimida pelas forças de segurança do Estado.

O conflito entre Correa e Moreno

Em tais condições, e em meio a uma agressiva política de endividamento público que derivou na superação do volume atual de dívida externa, com sobras, dos níveis herdados da época neoliberal, o então mandatário equatoriano decidiu não se apresentar às eleições de 2017, mas deixou aberta a porta para uma nova postulação em 2021.

Estrategicamente, o correísmo considerou que era melhor outro mandatário a proceder as políticas econômicas de ajuste já inapelavelmente necessárias ao país, permitindo assim uma regeneração da imagem de Rafael Correa, que estrategicamente voltaria em 2021 para “salvar” o Equador dos programas de ajuste, frutos de um déficit bruto, galopante e insustentável. Assim, em dezembro de 2015, a bancada oficialista aprovou forçosamente uma reforma constitucional que permitia a reeleição do mandatário para o período imediatamente posterior a uma legislatura marcada pela crise econômica herdada da gestão de saída.

Ainda assim, a estratégia para a volta ao poder de Correa passava pela necessidade de seguir controlando o aparato de Estado durante o atual período, bloqueando qualquer possibilidade de fiscalização e auditorias internas que pudesse se fazer sobre um modelo de gestão pública altamente corrupto, que significou durante dez anos a submissão de todos os poderes e órgãos de controle do Estado pelo Executivo.

Isso implicou na necessidade de a Aliança PAIS ganhar em 2017, ficando a maior parte das instituições públicas em mãos de ex-funcionários de provada proximidade com o ex-presidente. A única figura com a qual a Aliança PAIS contava para ganhar tais eleições era Lenin Moreno, que por suas funções de enviado especial do Secretário Geral da ONU sobre a Incapacidade e Acessibilidade residia em Genebra desde 2014, o que implicava no fato de ter se mantido à margem da degradação correísta dos últimos anos. 

Devemos nos remeter mais atrás no passado histórico do Equador para encontrar um mandatário que depois de dez anos de gestão continuada do poder terminou seu período com certo respaldo político – apesar da decadência dos últimos anos – como era o caso de Rafael Correa. Apesar da polarização social criada ao redor de sua figura, Correa abandonou a poltrona presidencial ainda sob importante apoio social, fundamentalmente entre os setores populares, os quais reconheciam o impulso a projetos sociais de caráter assistencialista e o investimento realizado durante a última década no âmbito da infraestrutura e modernização do Estado. Ainda assim, foi uma grande concatenação acelerada de erros políticos estratégicos que fizeram com que o ex-mandatário perdesse a hegemonia política ainda mantida no país.

Com a chegada da nova administração de Lenin, o correísmo deixava em postos estratégicos grande parte de sua equipe anterior de gestão. Isso significava que mantinha o controle sobre enorme e desmedido aparato de propaganda governamental, articulado na década passada, tal como se fazia a respeito do controle sobre a produção – sobre a qual o Estado equatoriano tinha notável incidência durante os últimos dez anos – no altar das responsabilidades estabelecidas em torno da figura do vice-presidente da República, Jorge Glas, o principal homem de confiança de Rafael Correa no novo gabinete, que se mantinha como responsável da mudança de matriz produtiva e investimento em megaprojetos.

Mas ao tempo, o correísmo mantinha o controle também sobre a frente política do governo através de figuras como a primeira titular da Secretaria Nacional de Gestão Pública (Paola Pabón) e do conselheiro presidencial (Ricardo Patiño), o principal operador político dentro da Aliança PAIS durante a gestão anterior, tal como fazia a respeito da Assembleia Nacional – o legislativo equatoriano – através de seus operadores na bancada majoritária da Aliança PAIS.

Não contente, Rafael Correa controlava também, mediante o Conselho de Participação Cidadã e Controle Social, os órgãos de fiscalização e controle do aparato de Estado, cuja designação de responsável respondia integralmente a personalidades afinadas ao ex-presidente. Isso ocorreu em instituições como o Conselho Nacional Eleitoral, a Corte Constitucional, a Controladoria Geral do Estado, a Procuradoria Geral do Estado, o Tribunal Contencioso Eleitoral, o Conselho do Judiciário ou a Defensoria do Povo, entre outros.

Apesar das tensões entre Lenin Moreno e a ala dura correísta serem palpáveis, desde esse mesmo momento, da investidura do atual presidente da República, em 24 de maio passado, momento em que a nova administração descobriu o estado real das finanças públicas, foi a entrega da sede social da CONAIE – estrutura organizativa do movimento indígena e organização social mais importante do país – e o anúncio em julho passado dos primeiros indultos de líderes populares criminalizados durante o regime anterior que geraram reações desqualificadoras de Rafael Correa sobre seu sucessor.

A partir daí os operadores correístas localizados em funções de direção dos distintos meios públicos começam a articular uma campanha contra a imagem do presidente Moreno, aduzindo que o país voltava às políticas do passado e que se estava produzindo uma divisão de poderes com as elites oligárquicas, o que significou que a nova administração morenista nomeasse novos responsáveis em tais meios de comunicação e órgãos. Desta maneira, o ex-presidente Correa perdia o controle do imenso aparato de propaganda e comunicação cuja criação havia sido auspiciada por ele mesmo.

Um mês depois, em inícios de agosto e já com a água no pescoço pelas investigações judiciais que se faziam a respeito da trama da Odebrecht no Equador, o então vice-presidente Jorge Glas – que fora também o segundo mandatário durante a última fase da era Correa – emitia uma extensa carta pública contra o atual chefe de Estado, acusando-o de convergir com os setores politicamente mais reacionários do país. A ruptura de relações entre o presidente Moreno e Jorge Glas acarretou na inabilitação do cargo do segundo, o que trouxe a perda de controle por parte de Rafael Correa sobre o aparato produtivo e os investimentos nos megaprojetos implementados no país. Meses mais tarde e fruto de investigações judiciais anticorrupção, Jorge Glas terminaria ocupando uma cela na prisão número 4 de Quito e destituído do cargo. O correísmo perdia, portanto, também sua incidência no aparato produtivo.

Poucos dias depois do exabrupto vice-presidencial e em vias de solucionar este conflito, o presidente Moreno enviaria a Bruxelas – lugar de residência atual de Correa – os principais operadores políticos de governo, todos eles vinculados durante a gestão anterior do ex-mandatário, com o fim de reconduzir de forma amigável as relações com o ex-presidente. Para surpresa do Executivo, depois da volta a Quito da dita delegação, suas principais cabeças – Ricardo Patiño, Paola Pabón e Virgílio Hernandez – anunciavam em coletiva de imprensa a renúncia a seus cargos no Executivo. Desta maneira, Rafael Correa perdia o controle da frente política governamental.

Destruídos todos os canais de comunicação entre o correísmo e o governo morenista, o presidente Moreno anunciaria nos primeiros meses de outubro passado a convocação de uma Consulta Popular onde algumas perguntas tinham a ver com uma lógica de reforma institucional pós-caudilhista que levasse o país a um caminho de superação do regime anterior. Isso terminaria de dinamitar internamente o partido do governo. Os setores afins ao ex-mandatário determinaram a expulsão, de forma irregular, de Lenin Moreno da Aliança PAIS convocando sem legitimidade jurídica uma convenção nacional da organização política com escasso êxito de adesão. O fato anterior acarretou, depois de uma decisão do Tribunal Contencioso Eleitoral, na perda do correísmo do controle do próprio partido. 

O último episódio deste mar de desacertos correístas se deu já em janeiro do presente ano, quando Correa chamou à desfiliação seus seguidores de Aliança PAIS, o que implicou também na perda de controle do legislativo, ficando com apenas 29 parlamentares, enquanto os outros 45 se alinharam a Lenín Moreno.

Em suma, apesar de ser difícil encontrar um ex-presidente que depois de dez anos de gestão mantivesse o nível de apoio de Correa, também é difícil encontrar algum que tenha demonstrado tal capacidade para dilapidá-lo tão rapidamente.

Consulta e pós-consulta

Foi assim que se chegou a 4 de fevereiro, momento em que o correísmo saboreou pela primeira vez uma derrota eleitoral. No fundo, assistimos algo que foi mais além da realização política de uma realidade indiscutível no Equador: o correísmo nunca construiu uma força social e política afim, mas utilizou o aparato de Estado operando sob lógicas clientelistas em favor de um partido de governo e da construção da imagem midiática de Rafael Correa como um grande caudilho populista. Isso implicou em que, após o abandono da cadeira presidencial e da recusa de seus caprichos nas instituições do Estado, seu apoio político diminuísse notavelmente.

A sociedade equatoriana votou pela conformação de um regime de transição que permitia superar a herança implantada pelo governo anterior, gerando as condições para a construção de um novo cenário político após o fim da hegemonia correísta. Foi cortado o cordão umbilical que vinculava o novo governo ao anterior, o que desabilita a narrativa correísta de que Lenin Moreno ocupa a presidência do país graças ao endosso de votos derivado da figura de Rafael Correa.

Após a consulta o país entra em uma nova fase política. Por um lado, o presidente Lenin Moreno ganhou momentaneamente sua disputa com o antecessor, apesar de Correa ainda manter um terço do eleitorado equatoriano. Correa e seus seguidores, após a desfiliação da Aliança PAIS, estão obrigados a conformar um novo movimento político nacional, apesar de a popularidade de seu líder estar em decadência. Correa, consciente de que o setor de antigos líderes da Aliança PAIS que o acompanham nesta nova aventura acrescentam realmente pouco, dada a má imagem diante da sociedade, está obrigado a liderar pessoalmente a construção do novo partido. Será uma tarefa urgente e nada fácil para o neocorreísmo criar uma nova figura política que tenha chances de disputar a presidência da República em 2021.

Por sua parte, a vontade de tal tendência é ocupar o espaço político da esquerda equatoriana, algo que já fizeram em 2006, apesar dos desencontros entre seu discurso e sua prática. Conseguir tal objetivo passa por bloquear qualquer possibilidade de construção de alternativas políticas no campo popular, algo urgentemente necessário para um país que sofre de uma esquerda cujo discurso político se encontra sem capacidade de sintonia com a sociedade, onde não existe geração de novas lideranças, e que se vê carente de construir uma proposta convincente para um novo modelo de sociedade e país.

Apesar de ser certo que a esquerda política e social equatoriana foi fracionada, em muitos casos cooptada e até perseguida pelo regime correísta durante os últimos dez anos, também é certo que existe uma incapacidade política por parte de sua endogâmica dirigência para se reinventar e reposicionar, com um discurso adaptado ao momento atual do país. O mero fato de que grande parte de tal esquerda apoiou em sua lógica anticorreísta a candidatura do conservador Guillermo Lasso no segundo turno das últimas eleições presidenciais é uma demonstração palpável de sua desorientação política e descrédito do que atualmente gozam na cidadania equatoriana. Nas fileiras conservadoras, as forças políticas que até o momento decidiram não fazer oposição política contumaz ao atual governo mudaram de atitude.

A proximidade de eleições seccionais, daqui um ano, faz as organizações políticas da direita voltarem a assumir protagonismo depois de uma aliança antinatural que permitiu a sensibilidades ideológicas muito diferentes um pacto de não agressão em troca de trabalharem, todos juntos, pelo Sim nesta consulta, em nome da finalidade de enterrar politicamente o correísmo. 

Meios de comunicação, setores empresariais e forças políticas conservadoras já anunciaram mudanças sobre sua ação diante do governo de Lenín Moreno, o que significará o aumento da pressão política e possivelmente de manifestações de rua, no sentido de que o governo adote posições mais reacionárias fundamentalmente no âmbito da política econômica.

Em todo caso, os setores da direita se mantêm divididos, existindo duas cabeças, até agora politicamente enfrentadas, que respondem a grupos de interesses diferentes. Tanto Guillermo Lasso, de forma aberta, como Jaime Nebot, de maneira mais sutil, aspiram à presidência da República no ano de 2021 ou até antes, se forem capazes de forçar o fim antecipado do mandato morenista, um governo sobre o qual visualizam debilidades não existentes no anterior.

Portanto, o governo nacional enfrenta uma situação inédita a partir de agora, a qual consistirá em receber de forma indiscriminada ataques tanto da direita – inclusive meios de comunicação privados e lobbies empresariais como nesta pretendida nova esquerda correísta. Que Lenín Moreno e sua equipe de gestão sejam capazes de fazer frente a tais pressões está por ser visto. De todo modo, a estratégia de um e outro lado já começou, em alguns casos até com apoio internacional, tal como no caso de Correa, que em breve disporá da plataforma televisiva Russian Today (RT), um meio de comunicação sensacionalista a serviço do aparato de propaganda de Vladimir Putin, como ferramenta de ataque ao atual governo.
Em 4 de fevereiro o povo equatoriano decidiu terminar com a hegemonia correísta que dominou o país nos últimos 11 anos. Dois de cada três cidadãos votaram a favor das perguntas da Consulta Popular impulsionada pelo Governo Nacional, em uma lógica de disputa auspiciada pelo ex-mandatário Rafael Correa, produzindo-se pela primeira vez na história uma rejeição cidadã majoritária aos seus postulados políticos. Até então – mediante consultas populares, plebiscitos, referendos – o ex-presidente Correa havia chegado a acumular em apenas dez anos doze vitórias consecutivas nas urnas.

Das sete perguntas impulsionadas pelo Executivo, as três primeiras tinham relação direta com o correísmo, abordando temas como:

•    A supressão de direitos políticos de condenados por corrupção, o que afeta a um número cada vez maior de altos funcionários que formaram parte do núcleo de poder do regime anterior – já há uma dezena de ex-ministros correístas que se encontram imputados em diferentes processos e este número aumentará – e que poderia terminar afetando o próprio Rafael Correa.

•    A eliminação da emenda constitucional aprovada na última fase do governo anterior, pela qual implementava a reeleição indefinida nos cargos de gestão pública a partir de 2021, e que permitia a Correa voltar a se apresentar, tal como era sua intenção, no próximo pleito presidencial;

•    E a recomposição do Conselho de Participação Cidadã e Controle Social – popularmente conhecido como o quinto poder constitucional – cujos membros designavam parte dos titulares das instituições do país, o que permitiu ao aparato correísta seguir controlando a estrutura do Estado, apesar de o ex-presidente não ocupar mais o cargo máximo.

O que foi o correísmo?

Compreender a situação atual do Equador significa entender o que foi isso que se convencionou chamar de correísmo e porque deixou de ser funcional neste momento para as elites equatorianas.

Desde 1997, a partir do governo de Abdalá Bucaram, o Equador inaugurou uma etapa de crise institucional permanente que fez com que nenhum presidente eleito desde então nas urnas conseguisse terminar o mandato.

Evidentemente, isso gerava grande instabilidade política e se tornou um fator de desequilíbrio importante a respeito de uma política de investimentos que se faziam cada vez mais urgentes e necessárias para a modernização capitalista que o país deveria empreender após a crise financeira de 1999 e 2000.

Com a entrada do presente século, a economia mundial se estabilizou, superando várias e importantes crises sofridas em diversos países do mundo – México e Venezuela (1994), Tailândia, Indonésia, Filipinas, Taiwan, Coreia do Sul (1997), Rússia (1998), Brasil (1999) ou Argentina (2001) – o que permitiu a melhora econômica internacional, com taxas de crescimento de 4% a 6% no começo da década, até a chegada da crise financeira global de 2008.

Da mesma forma, desde 2003 os preços das commodities aumentaram pelos efeitos dos furacões, como o Katrina, em instalações petroleiras; o crescimento na economia; e, particularmente, pelo auge da indústria da construção, que terminou em uma bolha especulativa cuja explosão fez os investidores voltarem suas pautas a mercados especulativos, tais como de ouro e petróleo, causando uma superdemanda artificial, o que fez o preço do óleo cru chegar ao seu ápice de 147,27 dólares o barril, em julho de 2008.

Neste contexto, o óleo cru equatoriano, que depende da cotização do petróleo norte-americano West Texas Intermediate (WTI) – que é o parâmetro de óleo cru nos EUA - e basicamente é vendido tanto pela PetroEcuador como pelas companhias privadas estrangeiras do país, também elevou notavelmente seus preços.

Sendo um país economicamente dependente de tal produto, o crescimento médio do PIB equatoriano durante a primeira década do presente século foi de 4,4%, enquanto durante os dez anos anteriores tal indicador não superou 1,8%. O anterior indica que a partir do ano 2000, a economia equatoriana começou a consolidar em grande medida apoiada pelas condições favoráveis – preço do petróleo e remessas provenientes dos migrantes – gerando-se as condições adequadas para uma modernização tardia do sistema capitalista nacional.

Neste contexto, o setor mais dinâmico do capital nacional entendeu que poderia melhorar suas possibilidades de negócio propiciando um maior nível de consumo nos mercados internos através de certa divisão do excedente petroleiro – não da distribuição da riqueza que continua em mãos de poucos – e a incorporação ao mercado de setores populares mediante o endividamento familiar e financeirização popular (democratização do consumo com base em empréstimos do setor financeiro privado). Este é o papel que fundamentalmente desempenhou o governo de Rafael Correa durante o último período de bonança econômica no Equador. 

Ao largo da primeira década do presente século, a maior fatia de participação no PIB da economia nacional foi o consumo privado, o qual representou uma média de 66,6% do PIB, convertendo-se em fator de maior contribuição ao crescimento nacional durante o período prévio à queda de preços do petróleo.

A dinamização da economia nacional tendo como motor o Estado, eixo da política econômica correísta, significou que os setores empresariais e financeiros foram os principais beneficiados em uma ação que carecia de riscos para os investimentos privados, pois se fazia base do erário público.

O respeito demonstrado pelo governo correísta à matriz de acumulação herdada da era neoliberal acarretou na inexistência da mais mínima transformação de caráter estrutural sobre os pilares que fundamentam os eixos constitutivos do poder no Equador; isso, apesar de setores historicamente esquecidos poderem se beneficiar durante o período de bonança de certas políticas assistencialistas, baseadas na transferência do excedente derivado de aprofundamento das políticas extrativistas. De quebra, significou que enquanto se ancorava em um propagandístico discurso soberanista, no interior do país se piorava cada vez mais a dependência econômica internacional dos mercados especulativos globais e se reprimarizassem substancialmente a economia global.

O modelo econômico funcionou e inclusive gozou de amplo apoio popular, milagre econômico diziam, enquanto durou o boom das commodities, indo abaixo toda a engrenagem das políticas sociais e econômicas correístas a partir da queda do preço do óleo cru em 2013.

É a partir de então, quando começam a se deteriorar certos serviços públicos, que a economia nacional se paralisa, o consumo interno cai e os indicadores de diminuição da pobreza e incremento da capacidade aquisitiva por parte dos trabalhadores passa a decair.

Em fevereiro de 2014, o governo do presidente Rafael Correa começaria a sentir o desgaste político de seu mandato, perdendo as eleições seccionais e as principais prefeituras do país para partidos de oposição. Os setores empresariais que em outro momento tinham sido beneficiados pelas políticas correístas, entendem ser hora de diminuir o gasto público, reduzir o volume do Estado e voltar a liberalizar a economia. Ante a nova falta de liquidez do Estado equatoriano, este deixou de ser funcional para seguir dinamizando a economia nacional, de modo que voltou a se colocar em questão a política de subsídios sociais.

O anterior significou incremento das mobilizações populares no conjunto do país e derivou em uma convocatória de greve/mobilização em agosto de 2015, de parte do movimento indígena e do sindicalismo não clientelista, que terminou vergonhosamente reprimida pelas forças de segurança do Estado.

O conflito entre Correa e Moreno

Em tais condições, e em meio a uma agressiva política de endividamento público que derivou na superação do volume atual de dívida externa, com sobras, dos níveis herdados da época neoliberal, o então mandatário equatoriano decidiu não se apresentar às eleições de 2017, mas deixou aberta a porta para uma nova postulação em 2021.

Estrategicamente, o correísmo considerou que era melhor outro mandatário a proceder as políticas econômicas de ajuste já inapelavelmente necessárias ao país, permitindo assim uma regeneração da imagem de Rafael Correa, que estrategicamente voltaria em 2021 para “salvar” o Equador dos programas de ajuste, frutos de um déficit bruto, galopante e insustentável. Assim, em dezembro de 2015, a bancada oficialista aprovou forçosamente uma reforma constitucional que permitia a reeleição do mandatário para o período imediatamente posterior a uma legislatura marcada pela crise econômica herdada da gestão de saída.

Ainda assim, a estratégia para a volta ao poder de Correa passava pela necessidade de seguir controlando o aparato de Estado durante o atual período, bloqueando qualquer possibilidade de fiscalização e auditorias internas que pudesse se fazer sobre um modelo de gestão pública altamente corrupto, que significou durante dez anos a submissão de todos os poderes e órgãos de controle do Estado pelo Executivo.

Isso implicou na necessidade de a Aliança PAIS ganhar em 2017, ficando a maior parte das instituições públicas em mãos de ex-funcionários de provada proximidade com o ex-presidente. A única figura com a qual a Aliança PAIS contava para ganhar tais eleições era Lenin Moreno, que por suas funções de enviado especial do Secretário Geral da ONU sobre a Incapacidade e Acessibilidade residia em Genebra desde 2014, o que implicava no fato de ter se mantido à margem da degradação correísta dos últimos anos. 

Devemos nos remeter mais atrás no passado histórico do Equador para encontrar um mandatário que depois de dez anos de gestão continuada do poder terminou seu período com certo respaldo político – apesar da decadência dos últimos anos – como era o caso de Rafael Correa. Apesar da polarização social criada ao redor de sua figura, Correa abandonou a poltrona presidencial ainda sob importante apoio social, fundamentalmente entre os setores populares, os quais reconheciam o impulso a projetos sociais de caráter assistencialista e o investimento realizado durante a última década no âmbito da infraestrutura e modernização do Estado. Ainda assim, foi uma grande concatenação acelerada de erros políticos estratégicos que fizeram com que o ex-mandatário perdesse a hegemonia política ainda mantida no país.

Com a chegada da nova administração de Lenin, o correísmo deixava em postos estratégicos grande parte de sua equipe anterior de gestão. Isso significava que mantinha o controle sobre enorme e desmedido aparato de propaganda governamental, articulado na década passada, tal como se fazia a respeito do controle sobre a produção – sobre a qual o Estado equatoriano tinha notável incidência durante os últimos dez anos – no altar das responsabilidades estabelecidas em torno da figura do vice-presidente da República, Jorge Glas, o principal homem de confiança de Rafael Correa no novo gabinete, que se mantinha como responsável da mudança de matriz produtiva e investimento em megaprojetos.

Mas ao tempo, o correísmo mantinha o controle também sobre a frente política do governo através de figuras como a primeira titular da Secretaria Nacional de Gestão Pública (Paola Pabón) e do conselheiro presidencial (Ricardo Patiño), o principal operador político dentro da Aliança PAIS durante a gestão anterior, tal como fazia a respeito da Assembleia Nacional – o legislativo equatoriano – através de seus operadores na bancada majoritária da Aliança PAIS.

Não contente, Rafael Correa controlava também, mediante o Conselho de Participação Cidadã e Controle Social, os órgãos de fiscalização e controle do aparato de Estado, cuja designação de responsável respondia integralmente a personalidades afinadas ao ex-presidente. Isso ocorreu em instituições como o Conselho Nacional Eleitoral, a Corte Constitucional, a Controladoria Geral do Estado, a Procuradoria Geral do Estado, o Tribunal Contencioso Eleitoral, o Conselho do Judiciário ou a Defensoria do Povo, entre outros.

Apesar das tensões entre Lenin Moreno e a ala dura correísta serem palpáveis, desde esse mesmo momento, da investidura do atual presidente da República, em 24 de maio passado, momento em que a nova administração descobriu o estado real das finanças públicas, foi a entrega da sede social da CONAIE – estrutura organizativa do movimento indígena e organização social mais importante do país – e o anúncio em julho passado dos primeiros indultos de líderes populares criminalizados durante o regime anterior que geraram reações desqualificadoras de Rafael Correa sobre seu sucessor.

A partir daí os operadores correístas localizados em funções de direção dos distintos meios públicos começam a articular uma campanha contra a imagem do presidente Moreno, aduzindo que o país voltava às políticas do passado e que se estava produzindo uma divisão de poderes com as elites oligárquicas, o que significou que a nova administração morenista nomeasse novos responsáveis em tais meios de comunicação e órgãos. Desta maneira, o ex-presidente Correa perdia o controle do imenso aparato de propaganda e comunicação cuja criação havia sido auspiciada por ele mesmo.

Um mês depois, em inícios de agosto e já com a água no pescoço pelas investigações judiciais que se faziam a respeito da trama da Odebrecht no Equador, o então vice-presidente Jorge Glas – que fora também o segundo mandatário durante a última fase da era Correa – emitia uma extensa carta pública contra o atual chefe de Estado, acusando-o de convergir com os setores politicamente mais reacionários do país. A ruptura de relações entre o presidente Moreno e Jorge Glas acarretou na inabilitação do cargo do segundo, o que trouxe a perda de controle por parte de Rafael Correa sobre o aparato produtivo e os investimentos nos megaprojetos implementados no país. Meses mais tarde e fruto de investigações judiciais anticorrupção, Jorge Glas terminaria ocupando uma cela na prisão número 4 de Quito e destituído do cargo. O correísmo perdia, portanto, também sua incidência no aparato produtivo.

Poucos dias depois do exabrupto vice-presidencial e em vias de solucionar este conflito, o presidente Moreno enviaria a Bruxelas – lugar de residência atual de Correa – os principais operadores políticos de governo, todos eles vinculados durante a gestão anterior do ex-mandatário, com o fim de reconduzir de forma amigável as relações com o ex-presidente. Para surpresa do Executivo, depois da volta a Quito da dita delegação, suas principais cabeças – Ricardo Patiño, Paola Pabón e Virgílio Hernandez – anunciavam em coletiva de imprensa a renúncia a seus cargos no Executivo. Desta maneira, Rafael Correa perdia o controle da frente política governamental.

Destruídos todos os canais de comunicação entre o correísmo e o governo morenista, o presidente Moreno anunciaria nos primeiros meses de outubro passado a convocação de uma Consulta Popular onde algumas perguntas tinham a ver com uma lógica de reforma institucional pós-caudilhista que levasse o país a um caminho de superação do regime anterior. Isso terminaria de dinamitar internamente o partido do governo. Os setores afins ao ex-mandatário determinaram a expulsão, de forma irregular, de Lenin Moreno da Aliança PAIS convocando sem legitimidade jurídica uma convenção nacional da organização política com escasso êxito de adesão. O fato anterior acarretou, depois de uma decisão do Tribunal Contencioso Eleitoral, na perda do correísmo do controle do próprio partido. 

O último episódio deste mar de desacertos correístas se deu já em janeiro do presente ano, quando Correa chamou à desfiliação seus seguidores de Aliança PAIS, o que implicou também na perda de controle do legislativo, ficando com apenas 29 parlamentares, enquanto os outros 45 se alinharam a Lenín Moreno.

Em suma, apesar de ser difícil encontrar um ex-presidente que depois de dez anos de gestão mantivesse o nível de apoio de Correa, também é difícil encontrar algum que tenha demonstrado tal capacidade para dilapidá-lo tão rapidamente.

Consulta e pós-consulta

Foi assim que se chegou a 4 de fevereiro, momento em que o correísmo saboreou pela primeira vez uma derrota eleitoral. No fundo, assistimos algo que foi mais além da realização política de uma realidade indiscutível no Equador: o correísmo nunca construiu uma força social e política afim, mas utilizou o aparato de Estado operando sob lógicas clientelistas em favor de um partido de governo e da construção da imagem midiática de Rafael Correa como um grande caudilho populista. Isso implicou em que, após o abandono da cadeira presidencial e da recusa de seus caprichos nas instituições do Estado, seu apoio político diminuísse notavelmente.

A sociedade equatoriana votou pela conformação de um regime de transição que permitia superar a herança implantada pelo governo anterior, gerando as condições para a construção de um novo cenário político após o fim da hegemonia correísta. Foi cortado o cordão umbilical que vinculava o novo governo ao anterior, o que desabilita a narrativa correísta de que Lenin Moreno ocupa a presidência do país graças ao endosso de votos derivado da figura de Rafael Correa.

Após a consulta o país entra em uma nova fase política. Por um lado, o presidente Lenin Moreno ganhou momentaneamente sua disputa com o antecessor, apesar de Correa ainda manter um terço do eleitorado equatoriano. Correa e seus seguidores, após a desfiliação da Aliança PAIS, estão obrigados a conformar um novo movimento político nacional, apesar de a popularidade de seu líder estar em decadência. Correa, consciente de que o setor de antigos líderes da Aliança PAIS que o acompanham nesta nova aventura acrescentam realmente pouco, dada a má imagem diante da sociedade, está obrigado a liderar pessoalmente a construção do novo partido. Será uma tarefa urgente e nada fácil para o neocorreísmo criar uma nova figura política que tenha chances de disputar a presidência da República em 2021.

Por sua parte, a vontade de tal tendência é ocupar o espaço político da esquerda equatoriana, algo que já fizeram em 2006, apesar dos desencontros entre seu discurso e sua prática. Conseguir tal objetivo passa por bloquear qualquer possibilidade de construção de alternativas políticas no campo popular, algo urgentemente necessário para um país que sofre de uma esquerda cujo discurso político se encontra sem capacidade de sintonia com a sociedade, onde não existe geração de novas lideranças, e que se vê carente de construir uma proposta convincente para um novo modelo de sociedade e país.

Apesar de ser certo que a esquerda política e social equatoriana foi fracionada, em muitos casos cooptada e até perseguida pelo regime correísta durante os últimos dez anos, também é certo que existe uma incapacidade política por parte de sua endogâmica dirigência para se reinventar e reposicionar, com um discurso adaptado ao momento atual do país. O mero fato de que grande parte de tal esquerda apoiou em sua lógica anticorreísta a candidatura do conservador Guillermo Lasso no segundo turno das últimas eleições presidenciais é uma demonstração palpável de sua desorientação política e descrédito do que atualmente gozam na cidadania equatoriana. Nas fileiras conservadoras, as forças políticas que até o momento decidiram não fazer oposição política contumaz ao atual governo mudaram de atitude.

A proximidade de eleições seccionais, daqui um ano, faz as organizações políticas da direita voltarem a assumir protagonismo depois de uma aliança antinatural que permitiu a sensibilidades ideológicas muito diferentes um pacto de não agressão em troca de trabalharem, todos juntos, pelo Sim nesta consulta, em nome da finalidade de enterrar politicamente o correísmo. 

Meios de comunicação, setores empresariais e forças políticas conservadoras já anunciaram mudanças sobre sua ação diante do governo de Lenín Moreno, o que significará o aumento da pressão política e possivelmente de manifestações de rua, no sentido de que o governo adote posições mais reacionárias fundamentalmente no âmbito da política econômica.

Em todo caso, os setores da direita se mantêm divididos, existindo duas cabeças, até agora politicamente enfrentadas, que respondem a grupos de interesses diferentes. Tanto Guillermo Lasso, de forma aberta, como Jaime Nebot, de maneira mais sutil, aspiram à presidência da República no ano de 2021 ou até antes, se forem capazes de forçar o fim antecipado do mandato morenista, um governo sobre o qual visualizam debilidades não existentes no anterior.

Portanto, o governo nacional enfrenta uma situação inédita a partir de agora, a qual consistirá em receber de forma indiscriminada ataques tanto da direita – inclusive meios de comunicação privados e lobbies empresariais como nesta pretendida nova esquerda correísta. Que Lenín Moreno e sua equipe de gestão sejam capazes de fazer frente a tais pressões está por ser visto. De todo modo, a estratégia de um e outro lado já começou, em alguns casos até com apoio internacional, tal como no caso de Correa, que em breve disporá da plataforma televisiva Russian Today (RT), um meio de comunicação sensacionalista a serviço do aparato de propaganda de Vladimir Putin, como ferramenta de ataque ao atual governo.


Em 4 de fevereiro o povo equatoriano decidiu terminar com a hegemonia correísta que dominou o país nos últimos 11 anos. Dois de cada três cidadãos votaram a favor das perguntas da Consulta Popular impulsionada pelo Governo Nacional, em uma lógica de disputa auspiciada pelo ex-mandatário Rafael Correa, produzindo-se pela primeira vez na história uma rejeição cidadã majoritária aos seus postulados políticos. Até então – mediante consultas populares, plebiscitos, referendos – o ex-presidente Correa havia chegado a acumular em apenas dez anos doze vitórias consecutivas nas urnas.

Das sete perguntas impulsionadas pelo Executivo, as três primeiras tinham relação direta com o correísmo, abordando temas como:

•    A supressão de direitos políticos de condenados por corrupção, o que afeta a um número cada vez maior de altos funcionários que formaram parte do núcleo de poder do regime anterior – já há uma dezena de ex-ministros correístas que se encontram imputados em diferentes processos e este número aumentará – e que poderia terminar afetando o próprio Rafael Correa.

•    A eliminação da emenda constitucional aprovada na última fase do governo anterior, pela qual implementava a reeleição indefinida nos cargos de gestão pública a partir de 2021, e que permitia a Correa voltar a se apresentar, tal como era sua intenção, no próximo pleito presidencial;

•    E a recomposição do Conselho de Participação Cidadã e Controle Social – popularmente conhecido como o quinto poder constitucional – cujos membros designavam parte dos titulares das instituições do país, o que permitiu ao aparato correísta seguir controlando a estrutura do Estado, apesar de o ex-presidente não ocupar mais o cargo máximo.

O que foi o correísmo?

Compreender a situação atual do Equador significa entender o que foi isso que se convencionou chamar de correísmo e porque deixou de ser funcional neste momento para as elites equatorianas.

Desde 1997, a partir do governo de Abdalá Bucaram, o Equador inaugurou uma etapa de crise institucional permanente que fez com que nenhum presidente eleito desde então nas urnas conseguisse terminar o mandato.

Evidentemente, isso gerava grande instabilidade política e se tornou um fator de desequilíbrio importante a respeito de uma política de investimentos que se faziam cada vez mais urgentes e necessárias para a modernização capitalista que o país deveria empreender após a crise financeira de 1999 e 2000.

Com a entrada do presente século, a economia mundial se estabilizou, superando várias e importantes crises sofridas em diversos países do mundo – México e Venezuela (1994), Tailândia, Indonésia, Filipinas, Taiwan, Coreia do Sul (1997), Rússia (1998), Brasil (1999) ou Argentina (2001) – o que permitiu a melhora econômica internacional, com taxas de crescimento de 4% a 6% no começo da década, até a chegada da crise financeira global de 2008.

Da mesma forma, desde 2003 os preços das commodities aumentaram pelos efeitos dos furacões, como o Katrina, em instalações petroleiras; o crescimento na economia; e, particularmente, pelo auge da indústria da construção, que terminou em uma bolha especulativa cuja explosão fez os investidores voltarem suas pautas a mercados especulativos, tais como de ouro e petróleo, causando uma superdemanda artificial, o que fez o preço do óleo cru chegar ao seu ápice de 147,27 dólares o barril, em julho de 2008.

Neste contexto, o óleo cru equatoriano, que depende da cotização do petróleo norte-americano West Texas Intermediate (WTI) – que é o parâmetro de óleo cru nos EUA - e basicamente é vendido tanto pela PetroEcuador como pelas companhias privadas estrangeiras do país, também elevou notavelmente seus preços.

Sendo um país economicamente dependente de tal produto, o crescimento médio do PIB equatoriano durante a primeira década do presente século foi de 4,4%, enquanto durante os dez anos anteriores tal indicador não superou 1,8%. O anterior indica que a partir do ano 2000, a economia equatoriana começou a consolidar em grande medida apoiada pelas condições favoráveis – preço do petróleo e remessas provenientes dos migrantes – gerando-se as condições adequadas para uma modernização tardia do sistema capitalista nacional.

Neste contexto, o setor mais dinâmico do capital nacional entendeu que poderia melhorar suas possibilidades de negócio propiciando um maior nível de consumo nos mercados internos através de certa divisão do excedente petroleiro – não da distribuição da riqueza que continua em mãos de poucos – e a incorporação ao mercado de setores populares mediante o endividamento familiar e financeirização popular (democratização do consumo com base em empréstimos do setor financeiro privado). Este é o papel que fundamentalmente desempenhou o governo de Rafael Correa durante o último período de bonança econômica no Equador. 

Ao largo da primeira década do presente século, a maior fatia de participação no PIB da economia nacional foi o consumo privado, o qual representou uma média de 66,6% do PIB, convertendo-se em fator de maior contribuição ao crescimento nacional durante o período prévio à queda de preços do petróleo.

A dinamização da economia nacional tendo como motor o Estado, eixo da política econômica correísta, significou que os setores empresariais e financeiros foram os principais beneficiados em uma ação que carecia de riscos para os investimentos privados, pois se fazia base do erário público.

O respeito demonstrado pelo governo correísta à matriz de acumulação herdada da era neoliberal acarretou na inexistência da mais mínima transformação de caráter estrutural sobre os pilares que fundamentam os eixos constitutivos do poder no Equador; isso, apesar de setores historicamente esquecidos poderem se beneficiar durante o período de bonança de certas políticas assistencialistas, baseadas na transferência do excedente derivado de aprofundamento das políticas extrativistas. De quebra, significou que enquanto se ancorava em um propagandístico discurso soberanista, no interior do país se piorava cada vez mais a dependência econômica internacional dos mercados especulativos globais e se reprimarizassem substancialmente a economia global.

O modelo econômico funcionou e inclusive gozou de amplo apoio popular, milagre econômico diziam, enquanto durou o boom das commodities, indo abaixo toda a engrenagem das políticas sociais e econômicas correístas a partir da queda do preço do óleo cru em 2013.

É a partir de então, quando começam a se deteriorar certos serviços públicos, que a economia nacional se paralisa, o consumo interno cai e os indicadores de diminuição da pobreza e incremento da capacidade aquisitiva por parte dos trabalhadores passa a decair.

Em fevereiro de 2014, o governo do presidente Rafael Correa começaria a sentir o desgaste político de seu mandato, perdendo as eleições seccionais e as principais prefeituras do país para partidos de oposição. Os setores empresariais que em outro momento tinham sido beneficiados pelas políticas correístas, entendem ser hora de diminuir o gasto público, reduzir o volume do Estado e voltar a liberalizar a economia. Ante a nova falta de liquidez do Estado equatoriano, este deixou de ser funcional para seguir dinamizando a economia nacional, de modo que voltou a se colocar em questão a política de subsídios sociais.

O anterior significou incremento das mobilizações populares no conjunto do país e derivou em uma convocatória de greve/mobilização em agosto de 2015, de parte do movimento indígena e do sindicalismo não clientelista, que terminou vergonhosamente reprimida pelas forças de segurança do Estado.

O conflito entre Correa e Moreno

Em tais condições, e em meio a uma agressiva política de endividamento público que derivou na superação do volume atual de dívida externa, com sobras, dos níveis herdados da época neoliberal, o então mandatário equatoriano decidiu não se apresentar às eleições de 2017, mas deixou aberta a porta para uma nova postulação em 2021.

Estrategicamente, o correísmo considerou que era melhor outro mandatário a proceder as políticas econômicas de ajuste já inapelavelmente necessárias ao país, permitindo assim uma regeneração da imagem de Rafael Correa, que estrategicamente voltaria em 2021 para “salvar” o Equador dos programas de ajuste, frutos de um déficit bruto, galopante e insustentável. Assim, em dezembro de 2015, a bancada oficialista aprovou forçosamente uma reforma constitucional que permitia a reeleição do mandatário para o período imediatamente posterior a uma legislatura marcada pela crise econômica herdada da gestão de saída.

Ainda assim, a estratégia para a volta ao poder de Correa passava pela necessidade de seguir controlando o aparato de Estado durante o atual período, bloqueando qualquer possibilidade de fiscalização e auditorias internas que pudesse se fazer sobre um modelo de gestão pública altamente corrupto, que significou durante dez anos a submissão de todos os poderes e órgãos de controle do Estado pelo Executivo.

Isso implicou na necessidade de a Aliança PAIS ganhar em 2017, ficando a maior parte das instituições públicas em mãos de ex-funcionários de provada proximidade com o ex-presidente. A única figura com a qual a Aliança PAIS contava para ganhar tais eleições era Lenin Moreno, que por suas funções de enviado especial do Secretário Geral da ONU sobre a Incapacidade e Acessibilidade residia em Genebra desde 2014, o que implicava no fato de ter se mantido à margem da degradação correísta dos últimos anos. 

Devemos nos remeter mais atrás no passado histórico do Equador para encontrar um mandatário que depois de dez anos de gestão continuada do poder terminou seu período com certo respaldo político – apesar da decadência dos últimos anos – como era o caso de Rafael Correa. Apesar da polarização social criada ao redor de sua figura, Correa abandonou a poltrona presidencial ainda sob importante apoio social, fundamentalmente entre os setores populares, os quais reconheciam o impulso a projetos sociais de caráter assistencialista e o investimento realizado durante a última década no âmbito da infraestrutura e modernização do Estado. Ainda assim, foi uma grande concatenação acelerada de erros políticos estratégicos que fizeram com que o ex-mandatário perdesse a hegemonia política ainda mantida no país.

Com a chegada da nova administração de Lenin, o correísmo deixava em postos estratégicos grande parte de sua equipe anterior de gestão. Isso significava que mantinha o controle sobre enorme e desmedido aparato de propaganda governamental, articulado na década passada, tal como se fazia a respeito do controle sobre a produção – sobre a qual o Estado equatoriano tinha notável incidência durante os últimos dez anos – no altar das responsabilidades estabelecidas em torno da figura do vice-presidente da República, Jorge Glas, o principal homem de confiança de Rafael Correa no novo gabinete, que se mantinha como responsável da mudança de matriz produtiva e investimento em megaprojetos.

Mas ao tempo, o correísmo mantinha o controle também sobre a frente política do governo através de figuras como a primeira titular da Secretaria Nacional de Gestão Pública (Paola Pabón) e do conselheiro presidencial (Ricardo Patiño), o principal operador político dentro da Aliança PAIS durante a gestão anterior, tal como fazia a respeito da Assembleia Nacional – o legislativo equatoriano – através de seus operadores na bancada majoritária da Aliança PAIS.

Não contente, Rafael Correa controlava também, mediante o Conselho de Participação Cidadã e Controle Social, os órgãos de fiscalização e controle do aparato de Estado, cuja designação de responsável respondia integralmente a personalidades afinadas ao ex-presidente. Isso ocorreu em instituições como o Conselho Nacional Eleitoral, a Corte Constitucional, a Controladoria Geral do Estado, a Procuradoria Geral do Estado, o Tribunal Contencioso Eleitoral, o Conselho do Judiciário ou a Defensoria do Povo, entre outros.

Apesar das tensões entre Lenin Moreno e a ala dura correísta serem palpáveis, desde esse mesmo momento, da investidura do atual presidente da República, em 24 de maio passado, momento em que a nova administração descobriu o estado real das finanças públicas, foi a entrega da sede social da CONAIE – estrutura organizativa do movimento indígena e organização social mais importante do país – e o anúncio em julho passado dos primeiros indultos de líderes populares criminalizados durante o regime anterior que geraram reações desqualificadoras de Rafael Correa sobre seu sucessor.

A partir daí os operadores correístas localizados em funções de direção dos distintos meios públicos começam a articular uma campanha contra a imagem do presidente Moreno, aduzindo que o país voltava às políticas do passado e que se estava produzindo uma divisão de poderes com as elites oligárquicas, o que significou que a nova administração morenista nomeasse novos responsáveis em tais meios de comunicação e órgãos. Desta maneira, o ex-presidente Correa perdia o controle do imenso aparato de propaganda e comunicação cuja criação havia sido auspiciada por ele mesmo.

Um mês depois, em inícios de agosto e já com a água no pescoço pelas investigações judiciais que se faziam a respeito da trama da Odebrecht no Equador, o então vice-presidente Jorge Glas – que fora também o segundo mandatário durante a última fase da era Correa – emitia uma extensa carta pública contra o atual chefe de Estado, acusando-o de convergir com os setores politicamente mais reacionários do país. A ruptura de relações entre o presidente Moreno e Jorge Glas acarretou na inabilitação do cargo do segundo, o que trouxe a perda de controle por parte de Rafael Correa sobre o aparato produtivo e os investimentos nos megaprojetos implementados no país. Meses mais tarde e fruto de investigações judiciais anticorrupção, Jorge Glas terminaria ocupando uma cela na prisão número 4 de Quito e destituído do cargo. O correísmo perdia, portanto, também sua incidência no aparato produtivo.

Poucos dias depois do exabrupto vice-presidencial e em vias de solucionar este conflito, o presidente Moreno enviaria a Bruxelas – lugar de residência atual de Correa – os principais operadores políticos de governo, todos eles vinculados durante a gestão anterior do ex-mandatário, com o fim de reconduzir de forma amigável as relações com o ex-presidente. Para surpresa do Executivo, depois da volta a Quito da dita delegação, suas principais cabeças – Ricardo Patiño, Paola Pabón e Virgílio Hernandez – anunciavam em coletiva de imprensa a renúncia a seus cargos no Executivo. Desta maneira, Rafael Correa perdia o controle da frente política governamental.

Destruídos todos os canais de comunicação entre o correísmo e o governo morenista, o presidente Moreno anunciaria nos primeiros meses de outubro passado a convocação de uma Consulta Popular onde algumas perguntas tinham a ver com uma lógica de reforma institucional pós-caudilhista que levasse o país a um caminho de superação do regime anterior. Isso terminaria de dinamitar internamente o partido do governo. Os setores afins ao ex-mandatário determinaram a expulsão, de forma irregular, de Lenin Moreno da Aliança PAIS convocando sem legitimidade jurídica uma convenção nacional da organização política com escasso êxito de adesão. O fato anterior acarretou, depois de uma decisão do Tribunal Contencioso Eleitoral, na perda do correísmo do controle do próprio partido. 

O último episódio deste mar de desacertos correístas se deu já em janeiro do presente ano, quando Correa chamou à desfiliação seus seguidores de Aliança PAIS, o que implicou também na perda de controle do legislativo, ficando com apenas 29 parlamentares, enquanto os outros 45 se alinharam a Lenín Moreno.

Em suma, apesar de ser difícil encontrar um ex-presidente que depois de dez anos de gestão mantivesse o nível de apoio de Correa, também é difícil encontrar algum que tenha demonstrado tal capacidade para dilapidá-lo tão rapidamente.

Consulta e pós-consulta

Foi assim que se chegou a 4 de fevereiro, momento em que o correísmo saboreou pela primeira vez uma derrota eleitoral. No fundo, assistimos algo que foi mais além da realização política de uma realidade indiscutível no Equador: o correísmo nunca construiu uma força social e política afim, mas utilizou o aparato de Estado operando sob lógicas clientelistas em favor de um partido de governo e da construção da imagem midiática de Rafael Correa como um grande caudilho populista. Isso implicou em que, após o abandono da cadeira presidencial e da recusa de seus caprichos nas instituições do Estado, seu apoio político diminuísse notavelmente.

A sociedade equatoriana votou pela conformação de um regime de transição que permitia superar a herança implantada pelo governo anterior, gerando as condições para a construção de um novo cenário político após o fim da hegemonia correísta. Foi cortado o cordão umbilical que vinculava o novo governo ao anterior, o que desabilita a narrativa correísta de que Lenin Moreno ocupa a presidência do país graças ao endosso de votos derivado da figura de Rafael Correa.

Após a consulta o país entra em uma nova fase política. Por um lado, o presidente Lenin Moreno ganhou momentaneamente sua disputa com o antecessor, apesar de Correa ainda manter um terço do eleitorado equatoriano. Correa e seus seguidores, após a desfiliação da Aliança PAIS, estão obrigados a conformar um novo movimento político nacional, apesar de a popularidade de seu líder estar em decadência. Correa, consciente de que o setor de antigos líderes da Aliança PAIS que o acompanham nesta nova aventura acrescentam realmente pouco, dada a má imagem diante da sociedade, está obrigado a liderar pessoalmente a construção do novo partido. Será uma tarefa urgente e nada fácil para o neocorreísmo criar uma nova figura política que tenha chances de disputar a presidência da República em 2021.

Por sua parte, a vontade de tal tendência é ocupar o espaço político da esquerda equatoriana, algo que já fizeram em 2006, apesar dos desencontros entre seu discurso e sua prática. Conseguir tal objetivo passa por bloquear qualquer possibilidade de construção de alternativas políticas no campo popular, algo urgentemente necessário para um país que sofre de uma esquerda cujo discurso político se encontra sem capacidade de sintonia com a sociedade, onde não existe geração de novas lideranças, e que se vê carente de construir uma proposta convincente para um novo modelo de sociedade e país.

Apesar de ser certo que a esquerda política e social equatoriana foi fracionada, em muitos casos cooptada e até perseguida pelo regime correísta durante os últimos dez anos, também é certo que existe uma incapacidade política por parte de sua endogâmica dirigência para se reinventar e reposicionar, com um discurso adaptado ao momento atual do país. O mero fato de que grande parte de tal esquerda apoiou em sua lógica anticorreísta a candidatura do conservador Guillermo Lasso no segundo turno das últimas eleições presidenciais é uma demonstração palpável de sua desorientação política e descrédito do que atualmente gozam na cidadania equatoriana. Nas fileiras conservadoras, as forças políticas que até o momento decidiram não fazer oposição política contumaz ao atual governo mudaram de atitude.

A proximidade de eleições seccionais, daqui um ano, faz as organizações políticas da direita voltarem a assumir protagonismo depois de uma aliança antinatural que permitiu a sensibilidades ideológicas muito diferentes um pacto de não agressão em troca de trabalharem, todos juntos, pelo Sim nesta consulta, em nome da finalidade de enterrar politicamente o correísmo. 

Meios de comunicação, setores empresariais e forças políticas conservadoras já anunciaram mudanças sobre sua ação diante do governo de Lenín Moreno, o que significará o aumento da pressão política e possivelmente de manifestações de rua, no sentido de que o governo adote posições mais reacionárias fundamentalmente no âmbito da política econômica.

Em todo caso, os setores da direita se mantêm divididos, existindo duas cabeças, até agora politicamente enfrentadas, que respondem a grupos de interesses diferentes. Tanto Guillermo Lasso, de forma aberta, como Jaime Nebot, de maneira mais sutil, aspiram à presidência da República no ano de 2021 ou até antes, se forem capazes de forçar o fim antecipado do mandato morenista, um governo sobre o qual visualizam debilidades não existentes no anterior.

Portanto, o governo nacional enfrenta uma situação inédita a partir de agora, a qual consistirá em receber de forma indiscriminada ataques tanto da direita – inclusive meios de comunicação privados e lobbies empresariais como nesta pretendida nova esquerda correísta. Que Lenín Moreno e sua equipe de gestão sejam capazes de fazer frente a tais pressões está por ser visto. De todo modo, a estratégia de um e outro lado já começou, em alguns casos até com apoio internacional, tal como no caso de Correa, que em breve disporá da plataforma televisiva Russian Today (RT), um meio de comunicação sensacionalista a serviço do aparato de propaganda de Vladimir Putin, como ferramenta de ataque ao atual governo.



viernes, 16 de febrero de 2018

Revitalizar el pensamiento crítico en América Latina

Por Decio Machado / Quito
Publicado en Semanario La Brecha de Uruguay



Los debates de la izquierda han gozado históricamente de una gran riqueza intelectual y teórica.

En el mundo del socialismo real, pese a la deriva totalitaria de sus estados, hubo potentes debates tales como si era posible el “socialismo en un solo país” entre los partidarios de León Trotsky y Iósif Stalin; la hoja de ruta para superar la oposición entre el trabajo intelectual y manual entre dirigentes y dirigidos surgidos en China durante la revolución cultural; o la controversia sobre la ley de valor de Marx en las sociedades de transición que protagonizaran el Che Guevara, Ernest Mandel y Charles Bettelheim, con la participación de Paul Sweezy entre otros pensadores marxistas.

De igual manera, los debates de la izquierda en los países capitalistas tampoco fueron baladíes, revitalizándose las elaboraciones respecto a la caracterización de la naturaleza de clase del Estado y el papel de la democracia al interior del pensamiento marxista y la teoría crítica. Estos debates abarcaron desde las formulaciones de Louis Althusser en relación con la naturaleza y papel de los llamados aparatos ideológicos y represivos del Estado hasta los análisis de Michel Foucault sobre los diagramas y dispositivos de poder-saber y la matriz disciplinaria del panóptico moderno. Por su parte, la ratificación de la naturaleza de clase del Estado y las formas particulares que adopta la dominación política supondrían también la aparición de nuevos estudios tanto desde la perspectiva subjetivista como desde las visiones estructuralistas, generando grandes duelos teóricos como la polémica entre Ralph Miliband y Nikos Poulantzas. Incluso tras la caída del Muro de Berlín, las posiciones de Toni Negri y Michael Hart frente a John Holloway, con sus diferentes posiciones sobre la dialéctica y las diferentes perspectivas entre el autonomismo y el marxismo abierto son de gran riqueza intelectual en el ámbito del debate teórico de fin del pasado siglo.

Quizás por ello causa tanta congoja y vergüenza ajena el nivel teórico esbozado por algunos de los académicos latinoamericanos que se han caracterizado en los últimos años por ser los legitimadores intelectuales de los regímenes progresistas. En el campo de la izquierda nunca se había visto tan extensa combinación entre simplificación del pensamiento y actitud conformista en el campo del saber.

Diría Pierre Bourdieu que el intelectual está obligado a desarrollar una práctica de autocrítica. Que deben llevar a cabo una crítica permanente de los abusos de poder o de autoridad que se realizan en nombre de la autoridad intelectual; o si se prefiere, deben someterse a sí mismos a la crítica del uso de la autoridad intelectual como arma política dentro del campo intelectual mismo. Para este destacado representante de la sociología contemporánea, todo académico debería también someter a crítica los prejuicios escolásticos cuya forma más persuasiva es la propensión a tomar como meta una serie de revoluciones de papel. Ironizaría Bourdieu indicando que esto llevó a los intelectuales de su generación a someterse a un radicalismo de papel confundiendo las cosas de lógica por la lógica de las cosas.

Sin embargo, a lo que hoy asistimos por parte del establishment académico de propagandistas de los regímenes progresistas no es otra cosa que lo que el zapatista subcomandante Galeano llamara “histeria ilustrada de la izquierda institucional”, esa que ingenuamente llegada al poder se convierte en un clon de lo que dice combatir, corrupción incluida.

Es evidente que a la producción de pensamiento reaccionario debemos oponer la producción de redes críticas desde la intelectualidad específica. Hago referencia a la noción teórica elaborada por Foucault por la cual se define una actividad inscrita en un campo acotado en el que el intelectual practica su labor singular. Algo más parecido a la figura del experto que a la del opinador generalista que habla indistintamente sobre cualquier cosa en cualquier contexto. Pero esto debe hacerse desde la honestidad, al igual que cualquier tipo de intervención política, y ahí, volviendo al sup Galeano, “hay que reconocer que esa izquierda ilustrada es de deshonestidad valiente”, pues no le importa hacer el ridículo.

En el fondo, el rol de esta intelectualidad progresista se asemeja bastante al de los propagandistas del viejo régimen estalinista, aquellos a los que el mismo Stalin –el menos intelectual de todos los bolcheviques que protagonizaron la Revolución Rusa– bautizaría como “los ingenieros del alma”. Así Vladimir Putin es comparado con Lenin; Rafael Correa con el Che Guevara; las elecciones en Ecuador con la batalla de Stalingrado o el juicio a Lula por sus implicaciones en la trama Odebrecht con el hipotético vía crucis de Jesuscristo en su camino al Calvario.

Sin embargo, hay que hacer memoria de la represión correísta sobre el paro/movilización que tuvo lugar en Ecuador entre el 2 y el 26 de agosto de 2015, donde hubo 229 “agresiones, detenciones, intentos de detención y allanamientos en todos los territorios donde se realizaron movilizaciones y protestas” (informe del Colectivo de Investigación y Acción Psicosocial Ecuador) o la impunidad en los casos de asesinatos a destacados opositores al modelo extractivista como José Tendetza, Freddy Taish o Bosco Wisuma. Hay que recordar también cómo el gobierno del PT criminalizó y agredió la protesta de jóvenes brasileños en las calles de todo el país en junio de 2013 y posteriormente durante el Mundial de Fútbol de 2014, o cómo se ha disparado el número de asesinatos de jóvenes negros en las zonas de favela en una lógica de política de “limpieza social” sobre todo a partir de la aprobación –con el apoyo del gobierno de Dilma Rousseff– de la ley antiterrorista en el Legislativo. De igual manera, ya no podemos mirar a otro lado ante el nivel de violencia desplegado por las fuerzas de seguridad del Estado en Venezuela, las violaciones de derechos humanos y el alarmante nivel de deterioro de la democracia en ese país.

Ante esta realidad me viene a la memoria Jean Paul Sartre –exponente del existencialismo y del marxismo humanista– cuando en el año 1945 escribió en la revista Le Temps Modernes, “considero a Flaubert y a Goncourt responsables de la represión que siguió a la Comuna de París porque no escribieron una palabra para impedirla”. Para Sartre, el corazón de cuya filosofía era una preciosa noción de libertad y un sentido concomitante de la responsabilidad personal, la misión de un intelectual es proporcionar a la sociedad “una conciencia que la arranque de la inmediatez y despierte la reflexión”.

Aquí, ¿cómo no?, conviene rememorar también al palestino Edward W Said, quien sentenciaría en uno de sus más famosos textos: “Básicamente, el intelectual (…) no es ni un pacificador ni un fabricante de consenso, sino más bien alguien que ha apostado con todo su ser a favor del sentido crítico, y que por lo tanto se niega a aceptar fórmulas fáciles, o clichés estereotipados, o las confirmaciones tranquilizadoras o acomodaticias de lo que tiene que decir el poderoso o convencional”.

Como podemos apreciar, nada que ver con el –en palabras del sup Galeano– “pensamiento perezoso” del progresismo criollo de estos tiempos. Entender el porqué de este deterioro intelectual tiene que ver con razones que van desde las aspiraciones personales de algunos académicos respecto a su capacidad de influencia política en el poder, hasta con una simple falta de conocimientos científicos o históricos que procura esconderse tras una supuesta superioridad analítica, todo ello sin olvidar las limitaciones derivadas del pensamiento binario por el que el mundo se divide simplemente entre derecha e izquierda.

Pero hablemos claro. No existe el pensamiento crítico funcional a gobiernos progresistas o partidos de la izquierda institucional, eso es una falacia. En realidad, la modernidad no se imagina la política sin un proyecto intelectual, por superficial que este sea, motivo por el que toma sentido la intelectualidad progresista actual. Así de tristes son las actuales relaciones entre el saber y la política convencional latinoamericana.

En todo caso, no puede haber un pensamiento crítico que no tenga su anclaje en la propuesta de pensar históricamente y por lo tanto cuestionar la impuesta aceptación de que siempre ha existido y existirá el capitalismo, lo que reduce la cancha del juego a proceder solamente a “humanizarlo”. El pensamiento crítico es en realidad un pensamiento radicalmente anticapitalista. En eso no hay negociación, pues de ello depende el futuro de la humanidad.

De igual manera, el pensamiento crítico implica profundizar sin concesiones el estudio de los mecanismos que mantienen la dominación –procedan éstos de donde sea–, lo cual no admite espacios para la seducción por parte del poder. Y requiere superar lo que podríamos llamar ortodoxia marxista, incorporando lógicas libertarias, ecologistas, feministas, anticolonialistas e indigenistas entre otras tantas.

Al mismo tiempo el pensamiento crítico parte de una acción comprometedora, está embarcado en la acción política y es por ello despreciado desde el poder. No es premiado con salarios de analista para medios de comunicación “progresistas”, no hace consultorías gubernamentales y tampoco forma parte del actual y extendido business académico.

A partir de aquí, el camino es largo pero necesario si esa intelectualidad progresista quiere dejar de vivir del Sur, para pasar a ayudar a transformarlo.



lunes, 12 de febrero de 2018

Ecuador ante un nuevo ciclo político

Tras la Consulta Popular del 4 de febrero

Por Decio Machado

El pasado 4 de febrero el pueblo ecuatoriano decidió terminar con la hegemonía correista que dominó el país durante los últimos 11 años. Dos de cada tres ecuatorianos votaron a favor de las preguntas de la Consulta Popular impulsada por el Gobierno Nacional en una lógica de disputa auspiciada por el ex mandatario Rafael Correa, produciéndose por primera vez en la historia un rechazo ciudadano mayoritario a los postulados políticos del ex mandatario. Hasta entonces -mediante consultas populares, plebiscitos, referéndums y elecciones- el ex presidente Correa había llegado a acumular en tan solo diez años doce victorias consecutivas en las urnas.

De las siete preguntas impulsadas desde el Ejecutivo, las tres primeras tenían relación directa con el correísmo, abordando temáticas como:

  • La supresión de derechos políticos a culpables de corrupción, lo cual afecta a un número cada vez mayor de altos funcionarios que formaron parte del núcleo de poder del antiguo régimen –son ya una decena de ex ministros correista los que se encuentran imputados en distintas causas y este número seguirá en aumento- y que podría terminar afectando al mismo Rafael Correa;

  • La eliminación de la enmienda constitucional aprobada en la última fase del gobierno anterior por la cual implementaba la reelección indefinida en los cargos de gestión pública a partir de 2021 y que permitía a Correa volver a presentarse, tal como era su intención, en los próximos comicios presidenciales;

  • Y, la recomposición del Consejo de Participación Ciudadana y Control Social –popularmente conocido como el quinto poder constitucional-, cuyos miembros designaban a parte de los titulares de las instituciones del país, lo cual se le permitió al aparato correista seguir manejando la estructura del Estado más allá de que el ex mandatario ya no ocupara el sillón presidencial.

¿Qué fue el correísmo?

Comprender la situación actual del Ecuador conlleva entender que es lo que fue esto que se ha definido como correísmo y el por qué ha dejado de ser funcional en este momento para las élites ecuatorianas.

Desde 1997, a partir del gobierno de Abdalá Bucaram, Ecuador inauguró una etapa de crisis institucional permanente que hizo que ningún presidente elegido desde entonces en las urnas lograra terminar su mandato. Evidentemente esto generaba gran inestabilidad política y se convirtió en un factor de desequilibrio importante respecto a una política de inversiones que se hacía cada vez más urgente y necesaria para la modernización capitalista que el país debía afrontar tras la crisis financiera vivida en los años 1999-2000.

A la entrada del presente siglo la economía mundial se estabilizó superando las varias e importantes crisis sufridas en diversos países del mundo –México y Venezuela (1994), Tailandia, Indonesia, Filipinas, Taiwán, Corea del Sur… (1997), Rusia (1998) o Argentina (2001)-, lo cual permitió a la economía internacional mejorar su desempeño, con crecimientos entre el 4% y el 6% al iniciar la década, hasta la llegada de la crisis financiera global de 2008.

De igual manera, desde 2003 los precios de los commodities aumentaron por los efectos de huracanes, como el Katrina, en instalaciones petroleras; el crecimiento en la economía de los países emergentes y en los industrializados; y, particularmente, por el auge de la industria de la construcción, que terminó en una burbuja especulativa, que al reventar hizo que los inversionistas vuelquen su interés a mercados especulativos tales como el oro y el petróleo, causando una sobre demanda artificial que hizo subir el precio del crudo a un máximo de 147,27 dólares por barril en julio de 2008.

En ese contexto, el crudo ecuatoriano que depende de la cotización del petróleo norteamericano West Texas Intermediate (WTI) -que es el crudo marcador para el continente americano- y que es básicamente vendido tanto por Petroecuador como por las compañías privadas extranjeras en el país, también elevó notablemente sus precios.

Siendo un país dependiente económicamente del crudo, el crecimiento promedio del PIB ecuatoriano durante la primera década del presente siglo fue de 4,4% mientras que durante los diez años anteriores dicho indicador no superó el 1,8%. Lo anterior indica que a partir del año 2000 la economía ecuatoriana comenzó a consolidarse en gran medida apoyada por condiciones externas favorables –precio del petróleo y las remesas provenientes de los migrantes- generándose las condiciones adecuadas para una tardomodernización del sistema capitalista nacional.

En ese contexto el sector más dinámico del capital ecuatoriano entendió que podía mejorar sus posibilidades de negocio propiciando un mayor nivel de consumo en los mercados internos a través de cierto reparto del excedente petrolero –no de la distribución de la riqueza que continúa en manos de unos pocos- y la incorporación al mercado de sectores populares mediante el endeudamiento familiar y financiarización popular (democratización del consumo con base en préstamos del sector financiero privado). Este es el rol que fundamentalmente desempeñó el gobierno de Rafael Correa durante el último período de bonanza económica en Ecuador.

A lo largo de la primera década del presente siglo, el mayor rubro de participación en el PIB en la economía nacional ha sido el consumo privado, el cual representó un promedio de 66,6% del PIB, convirtiéndose en el factor que más contribuyó al crecimiento nacional durante el período previo a la caída de los precios del petróleo.

La dinamización de la economía nacional teniendo como motor al Estado, eje de la política económica correista, significó que los sectores empresariales y financieros fueran los principales beneficiados de una acción que carecía de riesgos para la inversión privada pues se hacía en base al erario público. El respeto demostrado por el gobierno correista a la matriz de acumulación heredada de la era neoliberal, conllevó que no existiera la más mínima transformación de carácter estructural sobre los pilares que fundamentan los ejes constitutivos de poder en Ecuador; ello, pese a que los sectores históricamente olvidados pudieran beneficiarse durante el período de bonanza de ciertas políticas asistencialistas basadas en la transferencia del excedente derivado de la agudización de las políticas extractivistas. A la postre, esto significó que mientras se ponía hincapié en un propagandístico discurso soberanista, al interior del país se agudizara cada vez más la dependencia económica internacional de los mercados especulativos globales y se reprimarizara sustancialmente la economía nacional.

El modelo económico funcionó e incluso gozó de amplio apoyo popular, milagro económico lo llamaron, mientras duró el boom de los commodities, viniéndose al traste todo el andamiaje de las políticas sociales y económicas correistas a partir de la caída del precio del crudo en 2013.

Es a partir de entonces cuando comienzan a deteriorarse ciertos servicios públicos, la economía nacional se paraliza, el consumo interno cae y los indicadores de disminución de la pobreza e incremento de la capacidad adquisitiva por parte de los trabajadores comienza a deteriorarse.

En febrero del 2014 el gobierno del Presidente Rafael Correa comenzaría a sentir el desgaste político de su mandato, perdiendo en las elecciones seccionales las principales alcaldías del país ante partidos de oposición. Los sectores empresariales que en otro momento se habían visto beneficiados por las políticas correistas, entienden ahora que pasado el período de la economía fácil es necesario aminorar el gasto público, reducir el volumen del Estado y volver a liberalizar la economía. Ante la nueva falta de liquidez del Estado ecuatoriano, este dejó de ser funcional para seguir dinamizando la economía nacional y vuelve a ponerse en cuestión la política de subsidios sociales.

Lo anterior conllevó un incremento de las movilizaciones populares en el conjunto del país, lo cual derivó en una convocatoria de paro/movilización convocado en agosto del 2015 por el movimiento indígena y el sindicalismo no clientelar que terminó siendo vergonzosamente reprimido por las fuerzas de seguridad del Estado.

El conflicto Correa vs Moreno

En estas condiciones y en medio de una agresiva política de endeudamiento público que derivó en que el volumen de deuda externa actual supere con creces los niveles heredados de la época neoliberal, el entonces mandatario ecuatoriano decidió no presentarse a las elecciones del 2017, pero dejó abierta la puerta para una nueva postulación en 2021.

Estratégicamente el correísmo consideró que era mejor que fuera otro mandatario quien procediera con las políticas económicas de ajuste ya inaplazablemente necesarias en el país, permitiendo así una regeneración de la imagen de Rafael Correa, quien estratégicamente volvería en 2021 para “salvar” al Ecuador de los programas de ajuste fruto de un déficit fiscal galopante e insostenible. Así las cosas, en diciembre del 2015, la bancada oficialista aprobó forzadamente una reforma constitucional que permitía la reelección del mandatario para el período inmediatamente posterior a una legislatura marcada por la crisis económica heredada de la gestión saliente. Sin embargo, la estrategia para la vuelta al poder de Rafael Correa pasaba por la necesidad de seguir controlando el aparato del Estado durante el actual período, bloqueándose cualquier posibilidad de fiscalización y auditorias internas que pudiera hacerse sobre un modelo de gestión pública altamente corrupto que significó durante diez años la subyugación de todos los poderes y órganos del control del Estado al Ejecutivo.

Lo anterior implicó la necesidad de que Alianza PAIS ganara las elecciones del 2017, quedando la mayor parte de las instituciones públicas en manos de ex funcionarios de probada cercanía con el ex mandatario. La única figura con la que contaba Alianza PAIS para ganar estas elecciones era Lenín Moreno, quien por sus funciones como enviado especial del Secretario General de Naciones Unidos sobre Discapacidad y Accesibilidad había residido en Ginebra desde 2014, lo que implicaba que se hubiera mantenido al margen del deterioro correista de los últimos años.

Hay que remontarse muy atrás en la historia del Ecuador para encontrar un mandatario que tras diez años de gestión continuada en el poder terminase su período con cierto respaldo político -pese a la decadencia de los últimos años- como era el caso de Rafael Correa. Más allá la enorme polarización social creada entorno a su figura, Correa abandonó la poltrona presidencial con todavía un importante apoyo social fundamentalmente entre los sectores populares, los cuales le reconocían el impulso a proyectos sociales de carácter asistencialista y la inversión realizada durante la última década en el ámbito de la infraestructura y modernización del Estado. Sin embargo, ha sido una concatenación acelerada de errores político estratégicos los que han hecho que el ex mandatario perdiera la hegemonía que aun mantenía políticamente en el país.

Con la llegada la nueva administración de Lenín Moreno, el correísmo dejaba en puestos estratégicos a gran parte de su anterior equipo de gestión. Esto implicaba que mantenía el control sobre un enorme y desmedido aparato de propaganda gubernamental articulado durante la pasada década, al igual que lo hacía respecto al control sobre la producción –sobre la que el Estado ecuatoriano ha tenido una notable incidencia durante los últimos diez años-, en aras a las responsabilidades establecidas en torno a la figura del inicial Vicepresidente de la República, Jorge Glas, el principal hombre de confianza de Rafael Correa en el nuevo gabinete y quien se mantenía como responsable del cambio de matriz productiva y la inversión en megaproyectos. Pero al mismo tiempo, el correísmo mantenía el control también sobre el frente político del gobierno a través de figuras como la primera titular de la Cartera de la Gestión Política –Paola Pabón- y del consejero presidencial Ricardo Patiño –el principal operador político al interior de Alianza PAIS durante la gestión gubernamental anterior-, al igual que lo hacía respecto a la Asamblea Nacional –el legislativo ecuatoriano- a través de sus operadores en la bancada mayoritaria de Alianza PAIS. No contento con esto, Rafael Correa controlaba también, mediante el Consejo de Participación Ciudadana y Control Social, a los órganos de fiscalización y control del aparato del Estado, cuya designación de responsable respondía íntegramente a personalidades afines al ex presidente en instituciones tales como el Consejo Nacional Electoral, la Corte Constitucional, la Contraloría General del Estado, la Fiscalía General del Estado, el Tribunal Contencioso Electoral, el Consejo de la Judicatura o la Defensoría del Pueblo entre otras.

Pese a que las tensiones entre Lenín Moreno y el ala dura correista son palpables desde el mismo momento de la investidura del actual Presidente de la República, el 24 de mayo del pasado año, momento en que la nueva administración descubrió el estado real de las finanzas públicas, es la entrega de la sede social de la CONAIE –estructura organizativa del movimiento indígena y la organización social más importante del país- y el anuncio en julio pasado de los primeros indultos a líderes populares criminalizados durante el régimen anterior lo que generó las primeras reacciones descalificadoras de Rafael Correa respecto a su sucesor.

A partir de ahí los operadores correistas ubicados en funciones de dirección de los distintos medios públicos comienzan a articular una campaña contra la imagen del Presidente Moreno, aduciendo que el país volvía a las políticas del pasado y que se estaba produciendo un reparto de poderes con las élites oligárquicas, lo que conllevó a que la nueva administración morenista nombrase nuevos responsables en dichos medios de comunicación. De esta manera el ex presidente Correa perdía el control del inmenso aparato de propaganda y comunicación cuya creación había sido auspiciada por él mismo.

Un mes después, a primeros de agosto y ya con el agua al cuello fruto de las investigaciones judiciales que se hacían respecto a la trama de Odebrecht en Ecuador, el entonces Vicepresidente Jorge Glas –quien fuera también el segundo al mando durante la ultima fase de la era Correa- emitía una extensa carta pública contra el actual jefe de Estado, acusándolo de converger con los sectores políticamente más reaccionarios del país. La ruptura de relaciones entre el Presidente Moreno y Jorge Glas conllevó la inhabilitación en el cargo del segundo, lo que produjo la pérdida del control por parte de Rafael Correa sobre el aparato productivo y las inversiones en los megaproyectos implementados en el país. Meses más tarde y fruto de las investigaciones judiciales anticorrupción, Jorge Glas terminaría ocupando un celda en la Cárcel No. 4 de Quito y siendo revocado de su cargo. El correísmo perdía de esta forma también su incidencia sobre el aparato productivo.

Pocos días después del exabrupto vicepresidencial y en aras a solucionar este conflicto, el Presidente Moreno enviaría a Bruselas -lugar de residencia actual de Rafael Correa- a los principales operadores políticos del gobierno, todos ellos vinculados durante la gestión anterior al ex mandatario, con el fin de reconducir de forma amigable las relaciones con ex presidente. Para sorpresa del Ejecutivo, tras la vuelta a Quito de dicha delegación, sus principales cabezas -Ricardo Patiño, Paola Pabón y Virgilio Hernández- anunciaban en rueda de prensa la renuncia a sus cargos en el Ejecutivo. De esta manera, Rafael Correa perdía en este caso el control del frente político gubernamental.

Rotos ya todos los canales de comunicación entre el correísmo y el gobierno morenista, el Presidente Moreno anunciaría a primeros del pasado mes de octubre la convocatoria de una Consulta Popular donde algunas preguntas tenían que ver con una lógica de reforma institucional post-caudillista que enrumbase al país por una vía superadora del régimen anterior. Esto terminaría de dinamitar internamente al partido de gobierno. Los sectores afines al ex mandatario determinaron expulsar, de forma irregular, a Lenín Moreno de Alianza PAIS convocando sin legitimidad jurídica una convención nacional de dicha organización política con escaso éxito de convocatoria. Lo anterior conllevó a que tras una decisión del Tribunal Contencioso Electoral, el correísmo perdiera también el control de su propio partido.

El último episodio de este mar de desaciertos correistas se dio ya en enero del presente año, cuando Correa llamó a la desafiliación de sus seguidores de Alianza PAIS, lo cual implicó que también perdiera el control del legislativo, quedando el correísmo con apenas 29 asambleístas y alineándose los 45 restantes de la bancada oficialista con Lenín Moreno.

En resumen, si bien es difícil encontrar un ex mandatario que tras diez años de gestión mantuviera el nivel de apoyo de Correa, también lo es encontrar alguno que haya demostrado tal capacidad para dilapidarlo tan rápidamente.

Consulta y posconsulta

Fue así que se llegó al 4 de febrero, momento en el que el correísmo saboreó por primera vez una derrota electoral. En el fondo, no asistimos a algo que fuera más allá que la plasmación política de una realidad indiscutible en Ecuador: el correísmo nunca construyó una fuerza social y política afín, sino que utilizó al aparato del Estado operando bajo lógicas clientelares en pro del partido de gobierno y la construcción de la imagen mediática de Rafael Correa como un gran caudillo populista. Esto implicó que tras abandonar la poltrona presidencial y no gozar a su antojo de las instituciones del Estado su apoyo político disminuyera notablemente.

La sociedad ecuatoriana ha votado por la conformación de un régimen de transición que le permita superar la herencia implantada por el anterior gobierno, generando las condiciones para la construcción de una nuevo escenario político tras el fin de la hegemonía correista. Queda cortado el cordón umbilical que vinculaba al nuevo gobierno con el régimen anterior, lo cual inhabilita la narrativa correista de que Lenín Moreno ocupa la presidencia del país gracias al endoso de votos derivado de la figura de Rafael Correa.

Tras esta consulta el país entra en una nueva fase política. Por un lado, el Presidente Lenín Moreno ha ganado momentáneamente su pulso con su antecesor, si bien todavía Rafael Correa mantiene un tercio del electorado ecuatoriano. Correa y sus seguidores, tras su desafiliación de Alianza PAIS, están obligados a conformar un nuevo movimiento político nacional, pese a que la popularidad de su líder esté en decadencia. Correa, consciente de que el sector de antiguos líderes de Alianza PAIS que le acompañan esta nueva aventura aportan realmente poco dada la mala imagen de la que gozan ante la sociedad, está obligado a liderar personalmente la construcción del nuevo partido. Será una tarea urgente y nada fácil para el neocorreísmo crear una nueva figura política que tenga posibilidades de disputar la Presidencia de la República en el año 2021.

Por su parte, la voluntad de esta tendencia es ocupar el espacio político de la izquierda ecuatoriana, algo que ya hicieron en el 2006 más allá de los desencuentros entre su discurso y su praxis. Conseguir tal objetivo pasa por bloquear cualquier posibilidad de construcción de alternativas políticas en el campo popular, algo urgentemente necesario para un país que sufre de una izquierda cuyo discurso político se encuentra sin capacidad de sintonizar con la sociedad, donde no existe generación de nuevos liderazgos, y que se ve carente de construir una propuesta convincente para un nuevo modelo de sociedad y país.

Si bien es cierto que la izquierda política y social ecuatoriana ha sido fraccionada, en muchos casos cooptada y hasta perseguida por el régimen correista durante los diez últimos años, también lo es que existe una incapacidad política por parte de su endogámica dirigencia para reinventarse y reposicionarse con un discurso adaptado al momento actual de vive el país. El mero hecho de que gran parte de esta izquierda apoyara en su lógica anticorreista la candidatura del conservador Guillermo Lasso es la segunda vuelta de las últimas presidenciales, es una demostración palpable de su desorientación política y el descrédito del que actualmente gozan ante la ciudadanía ecuatoriana.

En la orilla conservadora, las fuerzas políticas que hasta el momento decidieron no hacerle una oposición política contumaz al actual gobierno cambiaran de actitud. La cercanía de las próximas elecciones seccionales, las cuales tendrán lugar en un año, hace que las organizaciones políticas de la derecha vuelvan a asumir protagonismo tras una alianza anti-natura que permitió que muy diferentes sensibilidades ideológicas establecieran un pacto de no agresión a cambio de trabajar todos por el Sí en esta consulta con el fin de enterrar políticamente al correísmo.

Medios de comunicación, sectores empresariales y fuerzas políticas conservadoras ya anunciaron cambios respecto a su accionar frente el gobierno de Lenín Moreno, lo cual significará el incremento de la presión política y posiblemente movilizaciones callejeras, buscando que el Gobierno Nacional adopte posiciones más reaccionarias fundamentalmente en el ámbito de la política económica.

En todo caso los sectores de la derecha se mantiene divididos, existiendo dos cabezas, hasta ahora políticamente enfrentadas, que responden a grupos de intereses diferenciados. Tanto Guillermo Lasso de forma abierta como Jaime Nebot de manera más sutil aspiran a la Presidencia de la República en el año 2021 o incluso antes si son capaces de forzar el fin anticipado de mandato morenista, un gobierno sobre el que visualizan debilidades no existentes en el gobierno anterior.

Así las cosas, el Gobierno Nacional enfrenta una situación inédita a partir de ahora, la cual consistirá en recibir indiscriminadamente ataques tanto de la derecha –inclusive medios de comunicación privados y lobbies empresariales- como de esta pretendida nueva izquierda correista. Que Lenín Moreno y su equipo de gestión sean capaces de hacer frente a estas presiones está por ver, en todo caso, la estrategia de uno y otro bando ya ha comenzado, en algunos casos incluso con apoyo internacional, tal y como es el caso de Rafael Correa quien en breve dispondrá de la plataforma televisiva Russian Today (RT), un medio de comunicación sensacionalista al servicio del aparato de propaganda putiniano, como herramienta para atacar al actual gobierno.

viernes, 9 de febrero de 2018

Sin tregua

El presidente Juan Manuel Santos suspendió el 29 de enero el diálogo de paz entre su gobierno y la guerrilla, aduciendo que ésta había violado la tregua pactada. El ELN acusa a su vez al gobierno de lo mismo. Algunos indican que la ruptura de la tregua responde a luchas internas en el grupo armado, donde tendrían -por el momento- más peso los sectores menos dialogantes. Mientras tanto, en Colombia sigue faltando las bases para construir un país con un mínimo de democracia y justicia social, y la población vuelve a sufrir a diario la guerra interna.

Por Decio Machado 
Revista Brecha de Uruguay / brecha.com.uy

Pese al Acuerdo de Paz firmado entre el Gobierno Nacional y las FARC en noviembre del 2016, Colombia sigue siendo uno de los países más violentos y agitados de la región. El país combina una crisis institucional que tal magnitud que el descrédito y la percepción de corrupción respecto a su casta política es generalizado entre la sociedad.

El establishment político colombiano, tradicionalmente mentiroso y corrupto e históricamente incapaz de solucionar los problemas estructurales que transversalizan desde hace décadas la realidad social y económica del país, basa gran parte de sus narrativas políticas en la estrategia del miedo al llamado “castrochavismo” y la supuesta imposición de un régimen “comunista” en el país. El discurso anterior permite focalizar por parte de las élites económicas y oligárquicas colombianas su estrategia política en base a la polarización frente a “supuestos” enemigos” internos que operan al servicio del comunismo internacional, lo que genera consensos sociales que les permiten no afrontar –durante décadas- el más mínimo cambio en un modelo económico tremendamente desigual que tiene su base en una institucionalidad política carente de legitimidad social. Para ilustrar el dato anterior, basta señalar que el abstencionismo en el último plebiscito popular impulsado por el gobierno fue del 62,60%, en las últimas elecciones presidenciales del 52,03% en primera vuelta y del 59,90% en segunda, es decir, sólo 13,2 millones de los más de 30 millones de voto habilitado en Colombia decidió quien sería el Presidente de la República en dicho país.

Es en ese contexto en el que el pasado 9 de enero terminó el acuerdo de cese al fuego bilateral y temporal establecido en la capital del Ecuador, por parte del gobierno colombiano y la guerrilla del Ejército de Liberación Nacional (ELN), el cual había entrado en vigor a partir del 1 de octubre del 2017.

Esta tregua negociada, la cual no significaba la entrega de armas por parte de la guerrilla ni el final de un conflicto armado que se prolonga desde 1964, tuvo un final dramático. Apenas dos días después de finalizado el cese transitorio de hostilidades el gobierno colombiano anunciaba la paralización de los diálogos de paz con la insurgencia, alegando que el ELN había vuelto a emprender acciones armadas tras 101 días de tregua.

Lo anterior implicó la retirada del representante gubernamental, Gustavo Bell –ex ministro de Defensa-, y su equipo de las mesas de negociación en Quito, bajo el argumento de que la guerrilla había cometido al menos cuatro ataques en el Este del país durante las últimas 24 horas contra oleoductos y destacamentos militares.

Las demandas desde la sociedad civil por la reanudación de los diálogos y la conformación de un nuevo período de tregua, permitió que representantes de la guerrilla y gobierno volvieran a juntarse en la búsqueda de reanudar los diálogos de paz y la negociación. Sin embargo, la reactivación de actividades militares por parte de ambos bandos significó que al menos cinco guerrilleros fuesen abatidos en una operación protagonizada por las Fuerzas Armadas en una zona rural del municipio de Valdivia, en el departamento de Antioquia, lo cual escenificaba la reanudación de la violencia en territorio colombiano tras la ruptura de las negociaciones.

La escalada armamentística desembocaría en varios atentados entre los días 27 y 28 de enero en que distintos artefactos harían explosión en zonas aledañas a estaciones de Policía en Barranquilla, Soledad y Santa Rosa del Sur dejando varios muertos y decenas de heridos.

El presidente Juan Manuel Santos declararía públicamente el mismo lunes 29 de enero su voluntad de “suspender la instalación del quinto ciclo de conversaciones que estaba prevista para los próximos días”, dando al traste –al menos momentáneamente- con las expectativas de paz que en las comunidades afectadas por el conflicto armado se había generado.

Una historia que se repite

Durante los últimos treinta años la ruptura de negociaciones de paz entre el gobierno y el ELN ha sido algo recurrente.

Los primeros intentos de llevar a buen término negociaciones entre la insurgencia elena y el gobierno colombiano datan del período presidencial del liberal Alfonso López Michelsen (1974-1978), teniendo su reedición durante los mandatos de César Gaviria (1990-1994), Ernesto Samper (1994-1998) y Andrés Pastrana (1998-2002).

Sin embargo, las constantes confrontaciones entre combatientes y militares, las presiones de poderes facticos sobre el gobierno y las urgencias requeridas para la desmovilización, hicieron que dichos diálogos nunca llegasen a buen fin. La experiencia actual, lamentablemente, no parece distinta.

La estrategia gubernamental se basa en lo que internacionalmente se conoce como la “estrategia Rabin”, un método derivado de la experiencia sionista que tampoco ha conseguido grandes logros de pacificación en territorio palestino tras setenta años de la creación del Estado de Israel. Esta se basa en combatir al enemigo con toda la contundencia como si no hubiese negociación de paz, pero se negocia al mismo tiempo como si no hubiese acciones armadas insurgentes.

En paralelo y por parte de los voceros del ELN, se denuncia que “desde antes de terminar el cese del fuego, el Ejército ha estado ampliando el pie de fuerza y tomando ventajas militares en varias de las regiones de mayor presencia del ELN”. Si bien lo anterior parece ser verdad, las voces de la dirigencia campesina e indígena que vuelven a sufrir cotidianamente el estado de guerra en Colombia tampoco justifican la vuelta de las operaciones militares defendida por el sector políticamente menos dialogante del ELN. Estos indican que la ruptura del proceso de paz esta basado en el pasado ataque a los cocaleros de Tumaco por parte de la fuerza pública, donde murieron entre cinco y nueve campesinos que protestaban contra la erradicación de cultivos ilícitos en la zona sin ninguna solución económica para la población local; la continuación de la política petrolera del Estado o la represión a la protesta social y los continuos asesinatos a líderes comunitarios y campesinos.

Las organizaciones sociales y campesinas de las regiones afectadas, que vivieron un período de tranquilidad durante los 101 días que duró la tregua, manifiestan su voluntad de que pese a los últimos acontecimientos bélicos el gobierno retome la línea de conversación con la guerrilla, tal y como lo están haciendo públicamente incluso miembros del Consejo de Seguridad de las Naciones Unidas.

Carlos Velandia, ex miembro del Comando Central del ELN, así como otros expertos conocedores de la realidad interna elena, consideran que la ruptura de la tregua responde a luchas internas al interior del grupo guerrillero, donde coyunturalmente estarían imponiéndose las tesis de los sectores menos dialogantes encabezados por Uriel, comandante del Chocó y el bloque occidental. Por otro lado, el abogado colombiano Rodrigo Uprimy, miembro del Comité de Derechos Económicos, Sociales y Culturales de las Naciones Unidas, considera que “no renovar el cese al fuego no sólo afectaría la confianza en el proceso de paz sino que tendría consecuencias humanitarias desastrosas”. De igual manera se manifiesta el analista Víctor de Currea Lugo, columnista del diario El Espectador, quien considera que “es altamente preocupante que las múltiples voces de la sociedad y de las regiones no hayan sido escuchadas”.

En ese sentido, tanto la Conferencia Episcopal como la Misión de Verificación de la ONU están haciendo llamados a ambas partes a mantener los logros alcanzados durante el cese del fuego bilateral, lo que permitió la “reducción de la violencia” durante el período que se mantuvo en vigencia.

Pese a que organizaciones tales como La Paz Querida, Indepaz, Naciones Unidas, el Centro de Pensamiento y Seguimiento al Diálogo de Paz o el manifiesto firmado por más de un centenar de académicos, escritores, empresarios, víctimas y congresistas están llamando a los negociadores del Gobierno y del ELN a que vuelva a retomar los diálogos de paz, la situación al momento actual permanece bloqueada.

Unos y otros se lavan las manos

Ni el Gobierno Nacional –con un presidente que fue premio Nobel de la Paz en 2016- ni la guerrilla quieren en la actualidad asumir sus responsabilidades como causantes de la ruptura de las negociaciones en Quito, pese a que en la actualidad el proceso de paz está agonizando.

La debilidad del gobierno de Juan Manuel Santos en este tramo final de su mandato es un factor que juega en contra de los deseos de una gran parte de sociedad colombiana en aras a una paz justa, la apertura democrática y el impulso de la participación ciudadana en el país. Entre los años 2002 y 2016 fueron asesinados 558 líderes sociales en Colombia, pero las expectativas de que tras los acuerdos de paz firmados entre el Gobierno Nacional y las FARC estos indicadores bajaran han ido quedando frustrados con el paso del tiempo. Tan sólo durante el pasado mes de enero, han sido registrados más de 23 muertes violentas de líderes populares en el conjunto del país, según un reciente informe documentado presentado por el Instituto de Estudios para el Desarrollo de la Paz en Colombia.

En paralelo, es un hecho que existe una dificultad histórica a la hora de negociar con el ELN, una organización guerrillera que se estima cuenta con 1.800 combatientes pero que mantiene una estructura federada que concede autonomía militar a sus frentes, los cuales responden política y militarmente en base al posicionamiento de cada uno de sus comandantes ante este proceso.

En todo caso, el contexto de estas negociaciones de paz se enrarece en función de que se aproxima el mes de marzo, donde se desarrollarán elecciones para renovar el Congreso, así como las presidenciales de mayo. Hay un amplio sector de la izquierda política institucional colombiana que, consciente de la ruptura de negociaciones de paz beneficia a los sectores más beligerantes de la ultraderecha encabezados por el ex presidente Álvaro Uribe, demanda que el ELN articule mecanismos de tregua unilateral que permitan volverse a sentarse a insurgencia y gobierno en las mesas de negociación. Incluso durante el año pasado, varios voceros de las FARC viajaron a Quito para convencer a los negociadores elenos de las bondades del proceso de paz.

En todo y mas allá de los intereses coyunturales de la clase política colombiana, así como de los actores en conflicto, es un hecho que siguen sin generarse las bases para la construcción de un país con unos mínimos de democracia y justicia social que permitan a los movimientos populares ejercer su voz y su acción sin temor al espectro de la violencia.


Generar las condiciones para que se reanude el diálogo pasa por que el conjunto de los sectores democráticos y populares se apropien de un proceso que no debería limitarse a una transa entre el ELN y el Gobierno. El diálogo debe ser amplio e incorporar a múltiples sectores de la sociedad que hoy, una vez más, vuelven a ser ignorados.