jueves, 23 de noviembre de 2017

Entrincheirados: intrigas políticas no partido do governo do Equador

A guerra de posições, também conhecida como guerra de trincheiras, foi utilizada como tática militar na guerra de secessão dos Estados Unidos e na guerra russo-japonesa, mas adquiriu seu protagonismo mundial a partir do fracasso da ofensiva relâmpago iniciada na Europa pelos alemães em 1914. A estratégia militar de frentes estáveis imobilizou durante anos os exércitos em linhas de trincheiras. Este novo cenário bélico propiciou uma guerra de desgaste, produziu um elevadíssimo número de baixas e arruinou o moral dos soldados que se viam obrigados a lutar durante anos em penosas condições.

Nas passagens mais lendárias dos seus Cadernos do Cárcere, Antônio Gramsci refletiria sobre estas estratégias de guerra, posição e manobra – defendendo esta última como o assalto -, entendendo o Estado como apenas uma trincheira mais avançada do conjunto de fortificações dos setores populares em sua luta pela hegemonia. Gramsci teve de reler Maquiavel para entender que a hegemonia é a capacidade orgânica dos setores dominantes em convencer as maiorias sociais a aceitarem os relatos que justificam e explicam a ordem política.
Por Decio Machado
Correio da Cidadania
A guerra de posições, a disputa pela hegemonia e parte do pensamento estratégico de Gramsci em relação ao funcionamento do poder e o Estado moderno voltaram a tomar atualidade na disputa política existente no Equador.

No final deste mês de outubro, as facções “hard” dos seguidores do ex-presidente Rafael Correa dentro do partido governista, Alianza País – que controla parte importante da direção nacional do mesmo partido – determinou unilateralmente e de forma não regimental a retirada do atual presidente do Equador, Lenin Moreno, da presidência de sua agrupação política e posicionar em seu lugar Ricardo Patiño (que exercia como segundo vice-presidente do partido; já que o primeiro vice-presidente está preso, investigado por corrupção). O objetivo era que se fortalecessem nas trincheiras do aparelho do partido oficialista, com o fim de criar obstáculos às reformas empreendidas pelo atual mandatário e sua equipe de ministros.
A guerra de posições, também conhecida como guerra de trincheiras, foi utilizada como tática militar na guerra de secessão dos Estados Unidos e na guerra russo-japonesa, mas adquiriu seu protagonismo mundial a partir do fracasso da ofensiva relâmpago iniciada na Europa pelos alemães em 1914. A estratégia militar de frentes estáveis imobilizou durante anos os exércitos em linhas de trincheiras. Este novo cenário bélico propiciou uma guerra de desgaste, produziu um elevadíssimo número de baixas e arruinou o moral dos soldados que se viam obrigados a lutar durante anos em penosas condições.

Nas passagens mais lendárias dos seus Cadernos do Cárcere, Antônio Gramsci refletiria sobre estas estratégias de guerra, posição e manobra – defendendo esta última como o assalto -, entendendo o Estado como apenas uma trincheira mais avançada do conjunto de fortificações dos setores populares em sua luta pela hegemonia. Gramsci teve de reler Maquiavel para entender que a hegemonia é a capacidade orgânica dos setores dominantes em convencer as maiorias sociais a aceitarem os relatos que justificam e explicam a ordem política.

A guerra de posições, a disputa pela hegemonia e parte do pensamento estratégico de Gramsci em relação ao funcionamento do poder e o Estado moderno voltaram a tomar atualidade na disputa política existente no Equador.

No final deste mês de outubro, as facções “hard” dos seguidores do ex-presidente Rafael Correa dentro do partido governista, Alianza País – que controla parte importante da direção nacional do mesmo partido – determinou unilateralmente e de forma não regimental a retirada do atual presidente do Equador, Lenin Moreno, da presidência de sua agrupação política e posicionar em seu lugar Ricardo Patiño (que exercia como segundo vice-presidente do partido; já que o primeiro vice-presidente está preso, investigado por corrupção). O objetivo era que se fortalecessem nas trincheiras do aparelho do partido oficialista, com o fim de criar obstáculos às reformas empreendidas pelo atual mandatário e sua equipe de ministros.

Contudo, apenas umas horas depois, vários membros do gabinete presidencial e da burocracia da Alianza País rechaçariam publicamente tal decisão, definindo-a como arbitrária e antidemocrática. Diante da confusão generalizada da militância, simpatizantes e redes clientelistas do partido político hegemônico no Equador, o Tribunal de Garantias Penais deixou – de forma imediata – sem efeito a decisão adotada pela direção nacional do partido, proibindo o Conselho Nacional Eleitoral de inscrever o ex-ministro correísta Ricardo Patiño como novo presidente da Alianza País.

Origens da intentona

O enfrentamento entre correístas e morenistas dentro do partido governista tem sua origem praticamente no mesmo dia da posse do atual presidente, Lenin Moreno.

Isso apesar do fato de que Lenin Moreno foi parte do binômio presidencial de Rafael Correa nas eleições de 2006 e de 2009, exercendo durante ambas legislaturas como vice-presidente da República. Na atualidade, o ex-mandatário equatoriano é o principal opositor do seu governo. Na guerra de trincheiras dentro da Alianza País e nas distintas frentes institucionais, enquanto os partidários de Moreno traçaram uma política de reformas que levam consigo uma narrativa autocrítica a respeito de determinadas políticas públicas aplicadas durante a gestão anterior e a abertura de processos de investigação sobre distintos casos de corrupção institucional, os correístas tentam derrubar a figura do presidente posicionando-o como um traidor que se aliou com a direita.

Nesta disputa que vem ocorrendo nos pouco mais de seis meses de mandato de Moreno, o correísmo – ao menos até agora – aparece como claro perdedor. Enquanto o atual mandatário ostenta elevados índices de popularidade, a figura de Rafael Correa – que deixou uma economia nacional em recessão – acabou seriamente deteriorada, enquanto são destapados cada vez mais casos de corrupção entre os seus colaboradores mais próximos.

O último movimento tático do presidente Moreno foi convocar uma consulta popular sobre as sete propostas, entre as quais se destacam a anulação da emenda constitucional – realizada na última etapa correista – que permite a reeleição indefinida do presidente da República, buscando impossibilitar que Rafael Correa seja candidato presidencial nas próximas eleições; e a reestruturação do Conselho de Participação Cidadã e Controle Social – organismo estatal composto por personalidades ligadas ao ex-presidente – abrindo a possibilidade de avaliar o desempenho das autoridades em organismos de controle do Estado, e cessá-las.

Se aprovadas essas reformas – e todas as sondagens de opinião pública até o momento assim o indicam – o correísmo sofrerá um esvaziamento completo de poder e se anularia qualquer possibilidade futura de uma rearticulação política desta tendência.

E o movimento dos setores correístas dentro da sua organização política, buscando a destituição e posterior expulsão de Lenin Moreno do partido, deve-se justamente à iniciativa do atual governo de levar a cabo tais reformas. Em paralelo, esta fração política está pressionando a Corte Constitucional – cuja composição vem do período anterior e tem afinidade com Correa –, a fim de fazer que tais questões não sejam viabilizadas. De igual maneira, os correístas na bancada oficialista buscam bloquear as iniciativas políticas provenientes do Executivo e o juízo político contra o encarcerado vice-presidente Jorge Glas.

Jogo de estratégias

Sem força política e apoiado somente por um setor de voto duro identificado com seus postulados, o qual se estima entre 20% e 23% do eleitorado, o correísmo é consciente de que o tempo joga contra.

O desenho estratégico do correísmo para tentar destituir Moreno consistia em gerar uma crise política dentro do partido Alianza País que desembocasse em uma convenção nacional extraordinária, a qual, com Rafael Correa à cabeça, permitisse recobrar as rendas do partido e sua hegemonia perdida na política nacional. Contudo, este movimento político criado apenas seis meses antes da sua primeira vitória eleitoral em 2006, e sem bases políticas naquele momento, se construiu verticalmente à sombra do poder, com quadros e caciques políticos de perfil arrivista e fortemente enraizado na tradicional política clientelista equatoriana, elementos que deixaram de ser funcionais ao correísmo uma vez que o ex-mandatário abandonou a poltrona presidencial.

Os resultados deste último pulso político foram devastadores para Rafael Correa: os morenistas anunciaram publicamente que 44 dos 75 congressistas que conformam a bancada oficialista na Assembleia Nacional se alinharam a Lenin Moreno, o que veio a significar que Correa perdeu o controle do Legislativo, enquanto que a maioria das direções provinciais do partido manifestaram rejeição à resolução da direção nacional e seu apoio a Lenin Moreno.

Pese tudo isto, Ricardo Patiño, principal operador político de Correa no país enquanto este segue residindo em Bruxelas, anunciou a pronta chegada do ex-mandatário a terras equatorianas, prevendo que os principais dirigentes correístas que participaram nesta movida podiam ser expulsos pela Comissão de Ética e Disciplina do Alianza País.

Se Rafael Correa volta nos próximos dias ao Equador possivelmente não será para reestabelecer sua liderança no partido que fundou – já que as trincheiras do correísmo no partido e em diferentes instituições têm ficado sumamente debilitadas – senão para liderar a conformação de uma nova organização política buscando confrontar politicamente com o atual governo e opondo-se à consulta popular.

Risco de desgaste

O presidente Moreno soube rentabilizar seu distanciamento de Correa, propondo a necessidade do diálogo e do consenso em uma sociedade que havia ficado fortemente polarizada, e levando a bandeira da luta contra a corrupção. Não obstante, a capacidade de execução política do governo foi limitada: ainda que não se saiba qual seja o caminhar desta legislatura. E ao se tratar de um presidente cuja popularidade se baseia unicamente no discurso, isto começa a gerar certas desconfianças na sociedade.

Por sua parte, tanto Rafael Correa como seus operadores no governo e na Alianza País buscam articular sua estratégia em torno do medo cidadão de uma possível volta do Equador ao passado, algo já utilizado em campanhas eleitorais, uma após a outra, durante a última década.

Trata-se de um argumento pouco consistente se levado em consideração que atualmente no Equador a oposição política a Alianza País não existe. Faz tempo que esta ficou sem espaço no tabuleiro da política nacional. De igual maneira, os movimentos sociais em geral, e indígenas em particular, também ficaram sem voz. Após dez anos de perseguições e criminalização do protesto social, estes movimentos se encontram atualmente imersos em negociações com um governo que ao menos se dispõe a escutá-los.

Assim, o panorama político para o médio prazo no Equador aponta como desolador. Enquanto a Alianza País se autodestrói, nem a oposição conservadora e nem a esquerda tradicional são capazes de posicionar alternativas com certa legitimidade social. A sua vez, o eleitorado é incapaz de distinguir entre as categorias políticas tradicionais de esquerda e de direita, pois logo de uma década de um discurso institucional revolucionário, adornado com velhas canções reivindicativas e alusões a múltiplos mitos revolucionários, resultou que os grupos economicamente mais beneficiados pelo regime foram os de sempre, enquanto a sociedade seguiu muito desequilibrada a favor dos historicamente privilegiados. Assim, denota-se um desinteresse crescente pela política tradicional em setores cada vez mais amplos da sociedade, nos quais a política não é mais discutida em termos de esquerdas e direitas.

Por outra parte, a incapacidade de renovação das lideranças históricas dos movimentos sociais equatorianos segue minando a possibilidade de novas formas de intervenção, a articulação de um discurso diferente e o reposicionamento do não institucional no âmbito da política, ficando esta última limitada às lutas de poder entre e dentro da estrutura partidária, que são disputadas sob o controle de instituições que não foram feitas para transformar a sociedade, senão para resistir às mudanças que a realidade demanda.

Não circulam novas ideias na política equatoriana, e não está sendo alimentada intelectualmente uma sociedade que busca, sem encontrar, estilos diferentes de exercer e atuar na política.

Com tais condições é fácil prever que, diante da ausência de alternativas com alguma credibilidade, se o atual governo não é capaz de concretizar políticas exitosas que dinamizem a economia nacional, gerem emprego digno e revitalizem a capacidade aquisitiva da grande maioria, o Equador estará imerso durante a atual gestão em uma nova crise de representatividade.

Leia também:

Lenín Moreno versus Rafael Correa: a nova disputa de poder no Equador

Vitória do correísmo não fará Equador escapar da regressiva dinâmica continental


Decio Machado é sociólogo e consultor político residente no Equador
Artigo publicado em espanhol no semanário Brecha, do Uruguai.
Traduzido por Raphael Sanz, para o Correio da Cidadania.
A guerra de posições, também conhecida como guerra de trincheiras, foi utilizada como tática militar na guerra de secessão dos Estados Unidos e na guerra russo-japonesa, mas adquiriu seu protagonismo mundial a partir do fracasso da ofensiva relâmpago iniciada na Europa pelos alemães em 1914. A estratégia militar de frentes estáveis imobilizou durante anos os exércitos em linhas de trincheiras. Este novo cenário bélico propiciou uma guerra de desgaste, produziu um elevadíssimo número de baixas e arruinou o moral dos soldados que se viam obrigados a lutar durante anos em penosas condições.

Nas passagens mais lendárias dos seus Cadernos do Cárcere, Antônio Gramsci refletiria sobre estas estratégias de guerra, posição e manobra – defendendo esta última como o assalto -, entendendo o Estado como apenas uma trincheira mais avançada do conjunto de fortificações dos setores populares em sua luta pela hegemonia. Gramsci teve de reler Maquiavel para entender que a hegemonia é a capacidade orgânica dos setores dominantes em convencer as maiorias sociais a aceitarem os relatos que justificam e explicam a ordem política.

A guerra de posições, a disputa pela hegemonia e parte do pensamento estratégico de Gramsci em relação ao funcionamento do poder e o Estado moderno voltaram a tomar atualidade na disputa política existente no Equador.

No final deste mês de outubro, as facções “hard” dos seguidores do ex-presidente Rafael Correa dentro do partido governista, Alianza País – que controla parte importante da direção nacional do mesmo partido – determinou unilateralmente e de forma não regimental a retirada do atual presidente do Equador, Lenin Moreno, da presidência de sua agrupação política e posicionar em seu lugar Ricardo Patiño (que exercia como segundo vice-presidente do partido; já que o primeiro vice-presidente está preso, investigado por corrupção). O objetivo era que se fortalecessem nas trincheiras do aparelho do partido oficialista, com o fim de criar obstáculos às reformas empreendidas pelo atual mandatário e sua equipe de ministros.

Contudo, apenas umas horas depois, vários membros do gabinete presidencial e da burocracia da Alianza País rechaçariam publicamente tal decisão, definindo-a como arbitrária e antidemocrática. Diante da confusão generalizada da militância, simpatizantes e redes clientelistas do partido político hegemônico no Equador, o Tribunal de Garantias Penais deixou – de forma imediata – sem efeito a decisão adotada pela direção nacional do partido, proibindo o Conselho Nacional Eleitoral de inscrever o ex-ministro correísta Ricardo Patiño como novo presidente da Alianza País.

Origens da intentona

O enfrentamento entre correístas e morenistas dentro do partido governista tem sua origem praticamente no mesmo dia da posse do atual presidente, Lenin Moreno.

Isso apesar do fato de que Lenin Moreno foi parte do binômio presidencial de Rafael Correa nas eleições de 2006 e de 2009, exercendo durante ambas legislaturas como vice-presidente da República. Na atualidade, o ex-mandatário equatoriano é o principal opositor do seu governo. Na guerra de trincheiras dentro da Alianza País e nas distintas frentes institucionais, enquanto os partidários de Moreno traçaram uma política de reformas que levam consigo uma narrativa autocrítica a respeito de determinadas políticas públicas aplicadas durante a gestão anterior e a abertura de processos de investigação sobre distintos casos de corrupção institucional, os correístas tentam derrubar a figura do presidente posicionando-o como um traidor que se aliou com a direita.

Nesta disputa que vem ocorrendo nos pouco mais de seis meses de mandato de Moreno, o correísmo – ao menos até agora – aparece como claro perdedor. Enquanto o atual mandatário ostenta elevados índices de popularidade, a figura de Rafael Correa – que deixou uma economia nacional em recessão – acabou seriamente deteriorada, enquanto são destapados cada vez mais casos de corrupção entre os seus colaboradores mais próximos.

O último movimento tático do presidente Moreno foi convocar uma consulta popular sobre as sete propostas, entre as quais se destacam a anulação da emenda constitucional – realizada na última etapa correista – que permite a reeleição indefinida do presidente da República, buscando impossibilitar que Rafael Correa seja candidato presidencial nas próximas eleições; e a reestruturação do Conselho de Participação Cidadã e Controle Social – organismo estatal composto por personalidades ligadas ao ex-presidente – abrindo a possibilidade de avaliar o desempenho das autoridades em organismos de controle do Estado, e cessá-las.

Se aprovadas essas reformas – e todas as sondagens de opinião pública até o momento assim o indicam – o correísmo sofrerá um esvaziamento completo de poder e se anularia qualquer possibilidade futura de uma rearticulação política desta tendência.

E o movimento dos setores correístas dentro da sua organização política, buscando a destituição e posterior expulsão de Lenin Moreno do partido, deve-se justamente à iniciativa do atual governo de levar a cabo tais reformas. Em paralelo, esta fração política está pressionando a Corte Constitucional – cuja composição vem do período anterior e tem afinidade com Correa –, a fim de fazer que tais questões não sejam viabilizadas. De igual maneira, os correístas na bancada oficialista buscam bloquear as iniciativas políticas provenientes do Executivo e o juízo político contra o encarcerado vice-presidente Jorge Glas.

Jogo de estratégias

Sem força política e apoiado somente por um setor de voto duro identificado com seus postulados, o qual se estima entre 20% e 23% do eleitorado, o correísmo é consciente de que o tempo joga contra.

O desenho estratégico do correísmo para tentar destituir Moreno consistia em gerar uma crise política dentro do partido Alianza País que desembocasse em uma convenção nacional extraordinária, a qual, com Rafael Correa à cabeça, permitisse recobrar as rendas do partido e sua hegemonia perdida na política nacional. Contudo, este movimento político criado apenas seis meses antes da sua primeira vitória eleitoral em 2006, e sem bases políticas naquele momento, se construiu verticalmente à sombra do poder, com quadros e caciques políticos de perfil arrivista e fortemente enraizado na tradicional política clientelista equatoriana, elementos que deixaram de ser funcionais ao correísmo uma vez que o ex-mandatário abandonou a poltrona presidencial.

Os resultados deste último pulso político foram devastadores para Rafael Correa: os morenistas anunciaram publicamente que 44 dos 75 congressistas que conformam a bancada oficialista na Assembleia Nacional se alinharam a Lenin Moreno, o que veio a significar que Correa perdeu o controle do Legislativo, enquanto que a maioria das direções provinciais do partido manifestaram rejeição à resolução da direção nacional e seu apoio a Lenin Moreno.

Pese tudo isto, Ricardo Patiño, principal operador político de Correa no país enquanto este segue residindo em Bruxelas, anunciou a pronta chegada do ex-mandatário a terras equatorianas, prevendo que os principais dirigentes correístas que participaram nesta movida podiam ser expulsos pela Comissão de Ética e Disciplina do Alianza País.

Se Rafael Correa volta nos próximos dias ao Equador possivelmente não será para reestabelecer sua liderança no partido que fundou – já que as trincheiras do correísmo no partido e em diferentes instituições têm ficado sumamente debilitadas – senão para liderar a conformação de uma nova organização política buscando confrontar politicamente com o atual governo e opondo-se à consulta popular.

Risco de desgaste

O presidente Moreno soube rentabilizar seu distanciamento de Correa, propondo a necessidade do diálogo e do consenso em uma sociedade que havia ficado fortemente polarizada, e levando a bandeira da luta contra a corrupção. Não obstante, a capacidade de execução política do governo foi limitada: ainda que não se saiba qual seja o caminhar desta legislatura. E ao se tratar de um presidente cuja popularidade se baseia unicamente no discurso, isto começa a gerar certas desconfianças na sociedade.

Por sua parte, tanto Rafael Correa como seus operadores no governo e na Alianza País buscam articular sua estratégia em torno do medo cidadão de uma possível volta do Equador ao passado, algo já utilizado em campanhas eleitorais, uma após a outra, durante a última década.

Trata-se de um argumento pouco consistente se levado em consideração que atualmente no Equador a oposição política a Alianza País não existe. Faz tempo que esta ficou sem espaço no tabuleiro da política nacional. De igual maneira, os movimentos sociais em geral, e indígenas em particular, também ficaram sem voz. Após dez anos de perseguições e criminalização do protesto social, estes movimentos se encontram atualmente imersos em negociações com um governo que ao menos se dispõe a escutá-los.

Assim, o panorama político para o médio prazo no Equador aponta como desolador. Enquanto a Alianza País se autodestrói, nem a oposição conservadora e nem a esquerda tradicional são capazes de posicionar alternativas com certa legitimidade social. A sua vez, o eleitorado é incapaz de distinguir entre as categorias políticas tradicionais de esquerda e de direita, pois logo de uma década de um discurso institucional revolucionário, adornado com velhas canções reivindicativas e alusões a múltiplos mitos revolucionários, resultou que os grupos economicamente mais beneficiados pelo regime foram os de sempre, enquanto a sociedade seguiu muito desequilibrada a favor dos historicamente privilegiados. Assim, denota-se um desinteresse crescente pela política tradicional em setores cada vez mais amplos da sociedade, nos quais a política não é mais discutida em termos de esquerdas e direitas.

Por outra parte, a incapacidade de renovação das lideranças históricas dos movimentos sociais equatorianos segue minando a possibilidade de novas formas de intervenção, a articulação de um discurso diferente e o reposicionamento do não institucional no âmbito da política, ficando esta última limitada às lutas de poder entre e dentro da estrutura partidária, que são disputadas sob o controle de instituições que não foram feitas para transformar a sociedade, senão para resistir às mudanças que a realidade demanda.

Não circulam novas ideias na política equatoriana, e não está sendo alimentada intelectualmente uma sociedade que busca, sem encontrar, estilos diferentes de exercer e atuar na política.

Com tais condições é fácil prever que, diante da ausência de alternativas com alguma credibilidade, se o atual governo não é capaz de concretizar políticas exitosas que dinamizem a economia nacional, gerem emprego digno e revitalizem a capacidade aquisitiva da grande maioria, o Equador estará imerso durante a atual gestão em uma nova crise de representatividade.

Leia também:

Lenín Moreno versus Rafael Correa: a nova disputa de poder no Equador

Vitória do correísmo não fará Equador escapar da regressiva dinâmica continental


Decio Machado é sociólogo e consultor político residente no Equador
Artigo publicado em espanhol no semanário Brecha, do Uruguai.
Traduzido por Raphael Sanz, para o Correio da Cidadania.
A guerra de posições, também conhecida como guerra de trincheiras, foi utilizada como tática militar na guerra de secessão dos Estados Unidos e na guerra russo-japonesa, mas adquiriu seu protagonismo mundial a partir do fracasso da ofensiva relâmpago iniciada na Europa pelos alemães em 1914. A estratégia militar de frentes estáveis imobilizou durante anos os exércitos em linhas de trincheiras. Este novo cenário bélico propiciou uma guerra de desgaste, produziu um elevadíssimo número de baixas e arruinou o moral dos soldados que se viam obrigados a lutar durante anos em penosas condições.

Nas passagens mais lendárias dos seus Cadernos do Cárcere, Antônio Gramsci refletiria sobre estas estratégias de guerra, posição e manobra – defendendo esta última como o assalto -, entendendo o Estado como apenas uma trincheira mais avançada do conjunto de fortificações dos setores populares em sua luta pela hegemonia. Gramsci teve de reler Maquiavel para entender que a hegemonia é a capacidade orgânica dos setores dominantes em convencer as maiorias sociais a aceitarem os relatos que justificam e explicam a ordem política.

A guerra de posições, a disputa pela hegemonia e parte do pensamento estratégico de Gramsci em relação ao funcionamento do poder e o Estado moderno voltaram a tomar atualidade na disputa política existente no Equador.

No final deste mês de outubro, as facções “hard” dos seguidores do ex-presidente Rafael Correa dentro do partido governista, Alianza País – que controla parte importante da direção nacional do mesmo partido – determinou unilateralmente e de forma não regimental a retirada do atual presidente do Equador, Lenin Moreno, da presidência de sua agrupação política e posicionar em seu lugar Ricardo Patiño (que exercia como segundo vice-presidente do partido; já que o primeiro vice-presidente está preso, investigado por corrupção). O objetivo era que se fortalecessem nas trincheiras do aparelho do partido oficialista, com o fim de criar obstáculos às reformas empreendidas pelo atual mandatário e sua equipe de ministros.

Contudo, apenas umas horas depois, vários membros do gabinete presidencial e da burocracia da Alianza País rechaçariam publicamente tal decisão, definindo-a como arbitrária e antidemocrática. Diante da confusão generalizada da militância, simpatizantes e redes clientelistas do partido político hegemônico no Equador, o Tribunal de Garantias Penais deixou – de forma imediata – sem efeito a decisão adotada pela direção nacional do partido, proibindo o Conselho Nacional Eleitoral de inscrever o ex-ministro correísta Ricardo Patiño como novo presidente da Alianza País.

Origens da intentona

O enfrentamento entre correístas e morenistas dentro do partido governista tem sua origem praticamente no mesmo dia da posse do atual presidente, Lenin Moreno.

Isso apesar do fato de que Lenin Moreno foi parte do binômio presidencial de Rafael Correa nas eleições de 2006 e de 2009, exercendo durante ambas legislaturas como vice-presidente da República. Na atualidade, o ex-mandatário equatoriano é o principal opositor do seu governo. Na guerra de trincheiras dentro da Alianza País e nas distintas frentes institucionais, enquanto os partidários de Moreno traçaram uma política de reformas que levam consigo uma narrativa autocrítica a respeito de determinadas políticas públicas aplicadas durante a gestão anterior e a abertura de processos de investigação sobre distintos casos de corrupção institucional, os correístas tentam derrubar a figura do presidente posicionando-o como um traidor que se aliou com a direita.

Nesta disputa que vem ocorrendo nos pouco mais de seis meses de mandato de Moreno, o correísmo – ao menos até agora – aparece como claro perdedor. Enquanto o atual mandatário ostenta elevados índices de popularidade, a figura de Rafael Correa – que deixou uma economia nacional em recessão – acabou seriamente deteriorada, enquanto são destapados cada vez mais casos de corrupção entre os seus colaboradores mais próximos.

O último movimento tático do presidente Moreno foi convocar uma consulta popular sobre as sete propostas, entre as quais se destacam a anulação da emenda constitucional – realizada na última etapa correista – que permite a reeleição indefinida do presidente da República, buscando impossibilitar que Rafael Correa seja candidato presidencial nas próximas eleições; e a reestruturação do Conselho de Participação Cidadã e Controle Social – organismo estatal composto por personalidades ligadas ao ex-presidente – abrindo a possibilidade de avaliar o desempenho das autoridades em organismos de controle do Estado, e cessá-las. 

Se aprovadas essas reformas – e todas as sondagens de opinião pública até o momento assim o indicam – o correísmo sofrerá um esvaziamento completo de poder e se anularia qualquer possibilidade futura de uma rearticulação política desta tendência.

E o movimento dos setores correístas dentro da sua organização política, buscando a destituição e posterior expulsão de Lenin Moreno do partido, deve-se justamente à iniciativa do atual governo de levar a cabo tais reformas. Em paralelo, esta fração política está pressionando a Corte Constitucional – cuja composição vem do período anterior e tem afinidade com Correa –, a fim de fazer que tais questões não sejam viabilizadas. De igual maneira, os correístas na bancada oficialista buscam bloquear as iniciativas políticas provenientes do Executivo e o juízo político contra o encarcerado vice-presidente Jorge Glas.

Jogo de estratégias

Sem força política e apoiado somente por um setor de voto duro identificado com seus postulados, o qual se estima entre 20% e 23% do eleitorado, o correísmo é consciente de que o tempo joga contra.

O desenho estratégico do correísmo para tentar destituir Moreno consistia em gerar uma crise política dentro do partido Alianza País que desembocasse em uma convenção nacional extraordinária, a qual, com Rafael Correa à cabeça, permitisse recobrar as rendas do partido e sua hegemonia perdida na política nacional. Contudo, este movimento político criado apenas seis meses antes da sua primeira vitória eleitoral em 2006, e sem bases políticas naquele momento, se construiu verticalmente à sombra do poder, com quadros e caciques políticos de perfil arrivista e fortemente enraizado na tradicional política clientelista equatoriana, elementos que deixaram de ser funcionais ao correísmo uma vez que o ex-mandatário abandonou a poltrona presidencial.

Os resultados deste último pulso político foram devastadores para Rafael Correa: os morenistas anunciaram publicamente que 44 dos 75 congressistas que conformam a bancada oficialista na Assembleia Nacional se alinharam a Lenin Moreno, o que veio a significar que Correa perdeu o controle do Legislativo, enquanto que a maioria das direções provinciais do partido manifestaram rejeição à resolução da direção nacional e seu apoio a Lenin Moreno.

Pese tudo isto, Ricardo Patiño, principal operador político de Correa no país enquanto este segue residindo em Bruxelas, anunciou a pronta chegada do ex-mandatário a terras equatorianas, prevendo que os principais dirigentes correístas que participaram nesta movida podiam ser expulsos pela Comissão de Ética e Disciplina do Alianza País.

Se Rafael Correa volta nos próximos dias ao Equador possivelmente não será para reestabelecer sua liderança no partido que fundou – já que as trincheiras do correísmo no partido e em diferentes instituições têm ficado sumamente debilitadas – senão para liderar a conformação de uma nova organização política buscando confrontar politicamente com o atual governo e opondo-se à consulta popular.

Risco de desgaste

O presidente Moreno soube rentabilizar seu distanciamento de Correa, propondo a necessidade do diálogo e do consenso em uma sociedade que havia ficado fortemente polarizada, e levando a bandeira da luta contra a corrupção. Não obstante, a capacidade de execução política do governo foi limitada: ainda que não se saiba qual seja o caminhar desta legislatura. E ao se tratar de um presidente cuja popularidade se baseia unicamente no discurso, isto começa a gerar certas desconfianças na sociedade.

Por sua parte, tanto Rafael Correa como seus operadores no governo e na Alianza País buscam articular sua estratégia em torno do medo cidadão de uma possível volta do Equador ao passado, algo já utilizado em campanhas eleitorais, uma após a outra, durante a última década.

Trata-se de um argumento pouco consistente se levado em consideração que atualmente no Equador a oposição política a Alianza País não existe. Faz tempo que esta ficou sem espaço no tabuleiro da política nacional. De igual maneira, os movimentos sociais em geral, e indígenas em particular, também ficaram sem voz. Após dez anos de perseguições e criminalização do protesto social, estes movimentos se encontram atualmente imersos em negociações com um governo que ao menos se dispõe a escutá-los.

Assim, o panorama político para o médio prazo no Equador aponta como desolador. Enquanto a Alianza País se autodestrói, nem a oposição conservadora e nem a esquerda tradicional são capazes de posicionar alternativas com certa legitimidade social. A sua vez, o eleitorado é incapaz de distinguir entre as categorias políticas tradicionais de esquerda e de direita, pois logo de uma década de um discurso institucional revolucionário, adornado com velhas canções reivindicativas e alusões a múltiplos mitos revolucionários, resultou que os grupos economicamente mais beneficiados pelo regime foram os de sempre, enquanto a sociedade seguiu muito desequilibrada a favor dos historicamente privilegiados. Assim, denota-se um desinteresse crescente pela política tradicional em setores cada vez mais amplos da sociedade, nos quais a política não é mais discutida em termos de esquerdas e direitas.

Por outra parte, a incapacidade de renovação das lideranças históricas dos movimentos sociais equatorianos segue minando a possibilidade de novas formas de intervenção, a articulação de um discurso diferente e o reposicionamento do não institucional no âmbito da política, ficando esta última limitada às lutas de poder entre e dentro da estrutura partidária, que são disputadas sob o controle de instituições que não foram feitas para transformar a sociedade, senão para resistir às mudanças que a realidade demanda.

Não circulam novas ideias na política equatoriana, e não está sendo alimentada intelectualmente uma sociedade que busca, sem encontrar, estilos diferentes de exercer e atuar na política.

Com tais condições é fácil prever que, diante da ausência de alternativas com alguma credibilidade, se o atual governo não é capaz de concretizar políticas exitosas que dinamizem a economia nacional, gerem emprego digno e revitalizem a capacidade aquisitiva da grande maioria, o Equador estará imerso durante a atual gestão em uma nova crise de representatividade.


Decio Machado é sociólogo e consultor político residente no Equador
Artigo publicado em espanhol no semanário Brecha, do Uruguai.
Traduzido por Raphael Sanz, para o Correio da Cidadania.
Contudo, apenas umas horas depois, vários membros do gabinete presidencial e da burocracia da Alianza País rechaçariam publicamente tal decisão, definindo-a como arbitrária e antidemocrática. Diante da confusão generalizada da militância, simpatizantes e redes clientelistas do partido político hegemônico no Equador, o Tribunal de Garantias Penais deixou – de forma imediata – sem efeito a decisão adotada pela direção nacional do partido, proibindo o Conselho Nacional Eleitoral de inscrever o ex-ministro correísta Ricardo Patiño como novo presidente da Alianza País.

Origens da intentona

O enfrentamento entre correístas e morenistas dentro do partido governista tem sua origem praticamente no mesmo dia da posse do atual presidente, Lenin Moreno.

Isso apesar do fato de que Lenin Moreno foi parte do binômio presidencial de Rafael Correa nas eleições de 2006 e de 2009, exercendo durante ambas legislaturas como vice-presidente da República. Na atualidade, o ex-mandatário equatoriano é o principal opositor do seu governo. Na guerra de trincheiras dentro da Alianza País e nas distintas frentes institucionais, enquanto os partidários de Moreno traçaram uma política de reformas que levam consigo uma narrativa autocrítica a respeito de determinadas políticas públicas aplicadas durante a gestão anterior e a abertura de processos de investigação sobre distintos casos de corrupção institucional, os correístas tentam derrubar a figura do presidente posicionando-o como um traidor que se aliou com a direita.

Nesta disputa que vem ocorrendo nos pouco mais de seis meses de mandato de Moreno, o correísmo – ao menos até agora – aparece como claro perdedor. Enquanto o atual mandatário ostenta elevados índices de popularidade, a figura de Rafael Correa – que deixou uma economia nacional em recessão – acabou seriamente deteriorada, enquanto são destapados cada vez mais casos de corrupção entre os seus colaboradores mais próximos.

O último movimento tático do presidente Moreno foi convocar uma consulta popular sobre as sete propostas, entre as quais se destacam a anulação da emenda constitucional – realizada na última etapa correista – que permite a reeleição indefinida do presidente da República, buscando impossibilitar que Rafael Correa seja candidato presidencial nas próximas eleições; e a reestruturação do Conselho de Participação Cidadã e Controle Social – organismo estatal composto por personalidades ligadas ao ex-presidente – abrindo a possibilidade de avaliar o desempenho das autoridades em organismos de controle do Estado, e cessá-las. 

Se aprovadas essas reformas – e todas as sondagens de opinião pública até o momento assim o indicam – o correísmo sofrerá um esvaziamento completo de poder e se anularia qualquer possibilidade futura de uma rearticulação política desta tendência.

E o movimento dos setores correístas dentro da sua organização política, buscando a destituição e posterior expulsão de Lenin Moreno do partido, deve-se justamente à iniciativa do atual governo de levar a cabo tais reformas. Em paralelo, esta fração política está pressionando a Corte Constitucional – cuja composição vem do período anterior e tem afinidade com Correa –, a fim de fazer que tais questões não sejam viabilizadas. De igual maneira, os correístas na bancada oficialista buscam bloquear as iniciativas políticas provenientes do Executivo e o juízo político contra o encarcerado vice-presidente Jorge Glas.

Jogo de estratégias

Sem força política e apoiado somente por um setor de voto duro identificado com seus postulados, o qual se estima entre 20% e 23% do eleitorado, o correísmo é consciente de que o tempo joga contra.

O desenho estratégico do correísmo para tentar destituir Moreno consistia em gerar uma crise política dentro do partido Alianza País que desembocasse em uma convenção nacional extraordinária, a qual, com Rafael Correa à cabeça, permitisse recobrar as rendas do partido e sua hegemonia perdida na política nacional. Contudo, este movimento político criado apenas seis meses antes da sua primeira vitória eleitoral em 2006, e sem bases políticas naquele momento, se construiu verticalmente à sombra do poder, com quadros e caciques políticos de perfil arrivista e fortemente enraizado na tradicional política clientelista equatoriana, elementos que deixaram de ser funcionais ao correísmo uma vez que o ex-mandatário abandonou a poltrona presidencial.

Os resultados deste último pulso político foram devastadores para Rafael Correa: os morenistas anunciaram publicamente que 44 dos 75 congressistas que conformam a bancada oficialista na Assembleia Nacional se alinharam a Lenin Moreno, o que veio a significar que Correa perdeu o controle do Legislativo, enquanto que a maioria das direções provinciais do partido manifestaram rejeição à resolução da direção nacional e seu apoio a Lenin Moreno.

Pese tudo isto, Ricardo Patiño, principal operador político de Correa no país enquanto este segue residindo em Bruxelas, anunciou a pronta chegada do ex-mandatário a terras equatorianas, prevendo que os principais dirigentes correístas que participaram nesta movida podiam ser expulsos pela Comissão de Ética e Disciplina do Alianza País.

Se Rafael Correa volta nos próximos dias ao Equador possivelmente não será para reestabelecer sua liderança no partido que fundou – já que as trincheiras do correísmo no partido e em diferentes instituições têm ficado sumamente debilitadas – senão para liderar a conformação de uma nova organização política buscando confrontar politicamente com o atual governo e opondo-se à consulta popular.

Risco de desgaste

O presidente Moreno soube rentabilizar seu distanciamento de Correa, propondo a necessidade do diálogo e do consenso em uma sociedade que havia ficado fortemente polarizada, e levando a bandeira da luta contra a corrupção. Não obstante, a capacidade de execução política do governo foi limitada: ainda que não se saiba qual seja o caminhar desta legislatura. E ao se tratar de um presidente cuja popularidade se baseia unicamente no discurso, isto começa a gerar certas desconfianças na sociedade.

Por sua parte, tanto Rafael Correa como seus operadores no governo e na Alianza País buscam articular sua estratégia em torno do medo cidadão de uma possível volta do Equador ao passado, algo já utilizado em campanhas eleitorais, uma após a outra, durante a última década.

Trata-se de um argumento pouco consistente se levado em consideração que atualmente no Equador a oposição política a Alianza País não existe. Faz tempo que esta ficou sem espaço no tabuleiro da política nacional. De igual maneira, os movimentos sociais em geral, e indígenas em particular, também ficaram sem voz. Após dez anos de perseguições e criminalização do protesto social, estes movimentos se encontram atualmente imersos em negociações com um governo que ao menos se dispõe a escutá-los.

Assim, o panorama político para o médio prazo no Equador aponta como desolador. Enquanto a Alianza País se autodestrói, nem a oposição conservadora e nem a esquerda tradicional são capazes de posicionar alternativas com certa legitimidade social. A sua vez, o eleitorado é incapaz de distinguir entre as categorias políticas tradicionais de esquerda e de direita, pois logo de uma década de um discurso institucional revolucionário, adornado com velhas canções reivindicativas e alusões a múltiplos mitos revolucionários, resultou que os grupos economicamente mais beneficiados pelo regime foram os de sempre, enquanto a sociedade seguiu muito desequilibrada a favor dos historicamente privilegiados. Assim, denota-se um desinteresse crescente pela política tradicional em setores cada vez mais amplos da sociedade, nos quais a política não é mais discutida em termos de esquerdas e direitas.

Por outra parte, a incapacidade de renovação das lideranças históricas dos movimentos sociais equatorianos segue minando a possibilidade de novas formas de intervenção, a articulação de um discurso diferente e o reposicionamento do não institucional no âmbito da política, ficando esta última limitada às lutas de poder entre e dentro da estrutura partidária, que são disputadas sob o controle de instituições que não foram feitas para transformar a sociedade, senão para resistir às mudanças que a realidade demanda.

Não circulam novas ideias na política equatoriana, e não está sendo alimentada intelectualmente uma sociedade que busca, sem encontrar, estilos diferentes de exercer e atuar na política.

Com tais condições é fácil prever que, diante da ausência de alternativas com alguma credibilidade, se o atual governo não é capaz de concretizar políticas exitosas que dinamizem a economia nacional, gerem emprego digno e revitalizem a capacidade aquisitiva da grande maioria, o Equador estará imerso durante a atual gestão em uma nova crise de representatividade.

Leia também:

Lenín Moreno versus Rafael Correa: a nova disputa de poder no Equador

Vitória do correísmo não fará Equador escapar da regressiva dinâmica continental


Decio Machado é sociólogo e consultor político residente no Equador
Artigo publicado em espanhol no semanário Brecha, do Uruguai.
Traduzido por Raphael Sanz, para o Correio da Cidadania.

martes, 21 de noviembre de 2017

Retos ante la posverdad

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Por Decio Machado
Publicado en Revista Plan V / Ecuador

El mito de la caverna es una de las alegorías clásicas que recoge el libro La República (Politeia), la más conocida e influyente obra de Platón y que fue considerada por Cicerón como el primer libro de filosofía griega. A través de la ficticia descripción de unos hombres que desde su nacimiento permanecen encadenados en las profundidades de una caverna, los cuales carecen de posibilidad para mirar atrás y comprender cuál es el origen de sus cadenas, una pequeña hoguera permite reflejar a través del movimiento de su fuego sus siluetas sobre un muro mediante el cual atisban a ver, entre penumbras, esbozos de contornos de árboles, animales, montañas lejanas y personas que vienen y van.

Para Platón, esos hombres encadenados se parecen a nosotros, ya que ni ellos ni nosotros vemos más que esas sombras falaces que simulan una realidad engañosa y superficial fruto de una ficción proyectada por la luz de una hoguera que nos distrae de la realidad.

El mito de la caverna, entre otras cuestiones, asienta la idea de que existe una verdad independiente de las opiniones de los seres humanos y la existencia de permanentes engaños que nos hacen ubicarnos lejos de esta.

En Occidente tuvo que llegar el movimiento cultural e intelectual europeo llamado Ilustración, allá por el siglo XVIII, para que la fe, la tradición o la autoridad del emisor de una información dejaran de ser credenciales suficientes para que una definición de la realidad tuviera la calidad de hecho fehaciente e ingresara con éxito al debate público. El Siglo de las Luces fue el surgimiento de la edad de las ideologías, esas que hoy vuelven a ser nuevamente denostadas desde los sectores más reaccionarios de nuestras sociedades, momento en el que se emprende la movilización de las masas para proyectos públicos a través de la retórica del discurso racional. Sin perjuicio de su inevitable recurso a las emociones y los sentimientos, lo central pasó a ser que los llamados a la acción de las opciones políticas de derecha e izquierda se vieron obligadas a basarse sobre diagnósticos más o menos elaborados respecto al modelo de sociedad que defendían como sistema ideal para la convivencia común.

Algo más de dos siglos después todo ese andamiaje racional está quedando hecho trizas. Explicar el porqué de este hecho tiene que ver con realidades tales como que el racionalismo en nuestros países nunca dejó de ser elitista, liberal y no democrático, quedando la participación política en manos de esa “gente experta que sí sabe”. Fruto de lo anterior, lamentablemente hoy resuena con mayor fuerza que nunca la idea nietcheriana de que las pasiones, los intereses y los instintos son dimensiones de la vida humana más básicas que la razón para motivar nuestra creencias. Sería Antonio Damásio, un médico neurólogo de origen portugués precursor de la neurociencia, quien nos diría que Descartes se equivocó, pues no es “pienso, luego existo”, sino “siento, luego existo” el quid de la cuestión.

El protagonismo actual de la política de la posverdad, eufemismo que busca sustituir el término de “mentira emotiva” por uno más afable, está vinculado a varios elementos clave: la crisis actual del capitalismo, el cual fruto de un proceso de acumulación salvaje, está haciendo que entre las grandes mayorías la desigualdad y la incertidumbre respecto al futuro sean los grandes fantasmas que hoy recorren el mundo; el desarrollo acelerado de las nuevas tecnologías de información y comunicación, las cuales en su versión negativa están permitiendo que en las redes sociales se transformen en una formidable herramienta para la transmisión de falsedades; la más que justificada perdida de autoridad de los medios de comunicación, los cuales históricamente fueron el eje discriminador entre la verdad de la mentira; y la expansión del anti-intelectualismo a nivel global, lo que se da de forma sorprendente en el marco de una sociedad a la que llaman del conocimiento.

Es así que en el mundo de la posverdad, ese mundo en el que los hechos objetivos tienen menos influencia que las apelaciones a las emociones y a las creencias personales, algo que aparenta ser verdad se convierte en un elemento más importante que la propia verdad para el común de los mortales.

Si bien la negación de los hechos y el engaño no son nada nuevo en la política, en 1986 Ronald Reagan admitió que había intercambiado armas por rehenes con Irán tras haber negado mil veces en los meses anteriores ese hecho, actualmente la expresión “noticias falsas” se ha convertido en un elemento ubicuo hasta el punto de que se utiliza de forma acusatoria para denunciar o menospreciar cualquier hecho incómodo. En 1992 el dramaturgo serbio-americano Steve Tesich escribió un ensayo publicado en The Nation donde se indicaba, tras las revelaciones del caso Watergate y las atrocidades realizadas por el ejército estadounidense en Vietnam, que la sociedad norteamericana había asumido una postura despectiva respecto a las verdades incómodas: “llegamos a equiparar la verdad con las malas noticias (…) pedimos a nuestro gobierno para que nos proteja de la verdad”.

El ejemplo actual más palpable de política de la posverdad se evidencia en la figura del actual presidente estadounidense Donald Trump, quien durante su campaña electoral etiquetó con éxito en sus redes sociales noticias reales y verificadas con noticias falsas por forma claramente intencional, algo que hasta no hace mucho tiempo era moralmente inaceptable.

En Ecuador, como siempre algo más tarde, también llegó la política de la posverdad. Es así que durante el régimen anterior asistimos a un amplio abanico de mentiras, las cuales abarcaron desde como el país había entrado en la carrera espacial hasta como caminábamos hacia el competir con las mejores universidades del mundo, todo ello sin olvidar la execrable parodia económica sobre el jaguar latinoamericano. Por otro lado y entiendo que el control de la información es poder, asistimos de igual manera a como desde el poder político se articuló una batalla sin cuartel contra unos medios de comunicación que tampoco es que fueran baluartes de transparencia y profesionalidad informativa, generándose en los medios públicas una copia del mismo malhacer tendencioso informativo existente en los medios privados.

Como toda acción conlleva reacción y pese a que los blogs no convencionales de información periodística personifican la democratización de los medios, la llegada de la posverdad generó múltiples plataformas internautas que muestran la cara más aterradora de la intoxicación informativa: noticias falsas, información manipulada y tendenciosas sobre los procesos de investigación respecto a casos de corrupción, acusaciones no comprobadas sobre políticos de uno y otro lado, así como aseveraciones tendenciosas y mal intencionadas sobre personalidades e instituciones públicas. Todo ello posicionado sin pudor a través de múltiples estrategias de viralización en redes sociales.

Así las cosas, la mala información -en el contexto de la lucha por el poder- nos están metiendo en la mayor crisis moral de nuestro tiempo. La abundancia de noticias falsas en la era de la posverdad, tanto en Ecuador como el conjunto del planeta, suponen un daño irreparable a los fundamentos del orden democrático, y es por ello que algunos autores ya están hablando de un nuevo momento post-democrático. Mientras se agudizan las polarizaciones, se corrompe la integridad intelectual y se daña el ya más que deteriorado tejido democrático global, van articulándose campañas de odio regionales como la conocida “Con mis hijos no te metas”, basadas en atropellar los derechos de los demás bajo estrategias de posverdad, a la par que se posicionan nuevas figuras políticas con aspiraciones presidenciales de perfil protofascista como la de Jair Bolsonaro en Brasil.

Ante tal situación, tanto gobiernos como empresas tecnológicas deben enfrentar nuevos retos destinados a generar herramientas tecnológicas mejoradas que permitan comprobar los hechos e informaciones que son posicionados en Internet. Un ejemplo de esto es el incipiente proyecto PHEME, en el que participan varias universidades y empresas europeas, mediante el cual se busca desarrollar un software que sirva como detector de mentiras en tiempo real en las redes sociales.

Por otro lado, se hace cada vez más necesario una mayor presencia pública de la comunidad científica y más diálogo entre el ámbito del conocimiento y los responsables de elaborar políticas públicas, intentando evitar así que la retórica sin fundamento se imponga a los hechos.

En ambos casos, se trata de articular medidas que surgiendo desde la sociedad misma se impongan sobre las iniciativas articuladas desde los estados basadas en el control de la información, siendo conscientes del especial interés por parte de los gobiernos de mantener el poder estableciendo mecanismos de censura y el bloqueo de páginas web.

lunes, 13 de noviembre de 2017

Decio Machado: "El crecimiento chino ha permitido globalmente reducir la pobreza pero ha incrementado el deterioro ambiental"


Entrevista a Decio Machado, experto en geopolítica y director ejecutivo de la Fundación ALDHEA.

Groen Guerrero Magazine

¿Cuál es tu valoración del XIX Congreso del Partido Comunista chino?

Básicamente hemos asistimos al reforzamiento del poder omnímodo del presidente de la República Popular de China, Xi Jinping, quien durante su gestión anterior ya se había encargado de anular cualquier posibilidad de incidencia de facciones rivales en la postulación de miembros en los órganos de dirección del PCCh. De esta manera Xi concentra aún los poderes en torno a su persona y mantiene la lógica de formentar el culto a su persona.

El reconocimiento por parte de la burocracia china de sus tesis sobre el socialismo chino con características particulares para una nueva era, lo cual ha pasado a formar parte del fundamento ideológico del partido más grande del mundo, posiciona su figura al mismo nivel que la de líderes históricos como Mao o Deng.

Tal y como ha quedado compuesto el Comité Permanente del Buró Político del PCCh, verdadero centro de poder en China, es muy posible que asistamos a su reelección para un tercer período en 2022. Esto sería algo inédito en la historia del partido desde el fallecimiento de Deng Xiaoping en febrero de 1997.

¿Cuáles son los aspectos políticos más importantes a reseñar durante el dicho Congreso?

Asistimos a un congreso marcado por la continuidad política en lo que ha sido la gestión de la burocracia china durante estos últimos cinco años. Se mantendrán las lógicas de paulatina apertura de la economía china bajo control del partido, se seguirá apostando por el desarrollo interno de nuevas tecnologías y la innovación en materia productiva y militar, así como se impulsaran lentas reformas destinadas a volver a atraer capitales hacia el gigante asiático. En este sentido es importante reseñar que la Inversión Extranjera Directa que llega a China es cada vez menor en relación al PIB del país, un porcentaje que se ha reducido a mitad en los últimos veinte años.

Desde tu punto de vista ¿cuáles son las causas de que se haya ralentizado el crecimiento de la economía china?

Al igual que muchas otras economías emergentes, aunque en este caso de forma sobredimensionada, China prosperó de manera clásica. Se construyeron carreteras para unir las fábricas a las instalaciones portuarias, se desarrollaron redes de telecomunicaciones buscando conectar unos centros de negocios con otros y se ofrecieron mejores remuneraciones en fábricas urbanas para su histórico campesinado. Sin embargo, hace años ya que la economía china alcanzó su punto de inflexión. La mano de obra procedente de las zonas rurales ya no es tan disponible como antaño y en empleo en fábricas alcanzó su máxima capacidad, de igual manera la inversión en infraestructura ya es muy considerable, a la par que la tendencia demográfica se ha invertido y ahora el Estado tiene que afrontar un reto para ellos insólito, la necesidad de cubrir dignamente las necesidades de su clase social pensionista.

El camino más probable para la China actual es el que siguió Japón a principios de la década de 1970, cuando su economía aún en auge desde el fin de la Segunda Gran Guerra se ralentizó sustancialmente pero continuó creciendo a un ritmo respetable. Hablamos de algo natural en cualquier economía “milagro”. China puede ser Japón tres décadas más tarde y diez veces más grande, lo cual como podemos apreciar en la actualidad tiene serias implicaciones para la economía global.

¿Ha sido beneficioso el crecimiento chino para el conjunto del planeta?

Digamos que el fin del ciclo de crecimiento chino en dos dígitos conlleva un análisis aun muy embrionario por parte de los académicos expertos en materia de desarrollo. En todo caso, me atrevo a afirmar que sin el desarrollo chino y sus implicaciones en materia comercial con el Sur Global no se habría asistido al nivel de reducción de la pobreza que hemos vivido durante la primera década y media de este siglo, pero por otro lado, la capacidad de fagocitación china de los recursos naturales globales ha sido también motor de la aceleración de las amenazas de destrucción ambiental y calentamiento global en las que estamos inmersos.

¿Es estable la economía china?

Buscar la estabilidad de su economía nacional es uno de los ejes principales abordados en este último congreso del PCCh. Dando respuesta a tu pregunta, considero que la economía china es relativamente estable, ha mostrado signos de reconducción positiva durante la gestión de Xi Jinping, sin embargo es una realidad que existe el riesgo de que pueda estallar una burbuja crediticia e inmobiliaria. Mientras los préstamos sigan acelerándose más que el PIB, es difícil afirmar que la economía china haya establecido una verdadera base para la estabilidad financiera.

Más allá de la planificación del Estado, el alto endeudamiento privado que enfrenta China es un grave problema, aunque se vea amortiguado por el hecho de que éste se desarrolle en su propia moneda. Cabe señalar que la “banca en la sombra” existente en China, más de seis bancos subterráneos que operan en los trasfondos de la economía oficial y de los cuales es imposible disponer de balances, suponen un volumen de riesgo cinco veces superior al que tenía Estados Unidos antes de la crisis subprime.

Xi Jinping expuso en su discurso inaugural que durante los últimos cinco años, esos coincidentes con su mandato al frente del PCCh, 60 millones de personas salieron de la pobreza. ¿Cuál es tu opinión?

Los ingresos per cápita de la población china están actualmente por encima de los 8.000 dólares y en progresión ascendente. Comparado con otros países que alto crecimiento económico como la India, el desarrollo chino ha permitido un nivel de mejoras económicas y sociales muy importante para su población. Sin embargo, lo que Xi no dijo en su conferencia es que el 1 por ciento de la población china controla un tercio de la riqueza nacional mientras el 25 por ciento más humilde tan sólo suma el 1 por ciento de esta riqueza. En pocas palabras, China es uno de los países más desiguales del planeta, lo cual pese al control político e informativo del PCCh sobre su población, significará a la postre un problema de desestabilización política.

Para terminar, ¿cómo ves el nuevo rol de China en el ámbito global?

Tras criticar solapadamente el nuevo aislacionismo propuesto por Donald Trump para los Estados Unidos, Xi en este congreso llamó textualmente a que China “tome el control del escenario mundial”. Esto en los países latinoamericanos ya es un hecho, dado que el nivel de inversiones chinas en el subcontinente se ha incrementado durante estos más de cuatro años ya de gestión presidencial de Xi Jinping. Los créditos atados provenientes del gigante asiático están significando también un alto nivel de implicación de empresas chinas en las economías nacionales latinoamericanas, hecho sobre el cual no voy a hacer una valoración en este momento.

Pero más allá de nuestra realidad local, es evidente que durante estos últimos cinco años ha habido cambios importantes respecto al papel de China en el concierto internacional. China ha pasado a liderar, al menos de palabra, la lucha internacional contra el cambio climático; es en estos momentos el mayor defensor planetario de la globalización económico capitalista; está reconfigurando el orden global y los espacios de atracción de inversiones a través del mega proyecto Nueva Ruta de la Seda y ha creado el Banco Asiático de Inversiones en Infraestructuras para remodelar el viejo orden internacional sostenido tras la Segunda Guerra Mundial bajo la batuta de la instituciones de Bretton Woods. Estamos ante un nuevo mundo donde la visión del poder global conlleva ojos rasgados.

Hacia un mundo feliz

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Por Decio Machado
Revista Digital Plan V

Las aplicaciones de mensajería instantánea, los correos electrónicos, las cadenas que se introducen en los buscadores de Internet, nuestras interacciones en redes sociales, las compras online, los ficheros compartidos en la nube o nuestra propia ubicación a través de programas georeferenciados utilizados desde nuestros smartphones, son informaciones susceptibles de ser capturadas por autoridades involucradas en el disciplinamiento y control social, así como por empresas privadas con claros intereses comerciales.

Internet nació a partir del proyecto Advanced Researchs Projects Agency (ARPA), creado por el Ministerio de Defensa de los Estados Unidos tras el lanzamiento del primer Sputnik en 1957. El ARPA estaba formado por unos 200 científicos de alto nivel y gozó de un gran presupuesto, buscando crear comunicaciones directas entre computadores para poder comunicar –compartiendo recursos- las diferentes bases de investigación. Una década después y gracias a la invención de la conmutación de paquetes, se comenzó a crear una red de computadoras denominada ARPANET, la cual recopiló las mejores ideas de los equipos del Massachusetts Institute of Technology bajo la dirección del psicólogo e informático norteamericano John Licklider.

Durante las décadas de 1970 y 1980 el Internet fue una herramienta eminentemente académica, utilizada tan solo por científicos, que fue teniendo calado en el ámbito contracultural a través de los primeros aficionados a la informática. Sin embargo, más allá de su léxico comunitario y la liberación de información gratuita en la red, Internet tenía un claro propietario: el gobierno estadounidense, el cual inicialmente no se preocupó de su control porque ni le interesaba ni lo terminaba de entender.

El desarrollo de la World Wide Web (www), diseñado con Tim Berners-Lee y algunos científicos del Conseil Européen pour la Recherche Nucléaire en Ginebra, permitió que en los años noventa el Internet comenzara a tener una amplia difusión en el mundo comercial. Pese a no dejar de tener una cultura de libertad en su seno, esta herramienta pasó a ser una expresión de la cultura capitalista liberal hegemónica.

En su evolución el Internet ha pasado a vivir en la paradoja de unir cada vez más individuos al mismo tiempos que nos fragmenta creando mayor desigualdad, en un mundo donde esta crece, entre quienes utilizan las Tecnologías de Información y Comunicación (TIC) como una parte rutinaria de su vida diaria y esa más de la mitad de la población mundial –especialmente mujeres- que vive desconectada. Pero además, Internet se convierte en un arma de doble filo, pues tiene un potencial democratizador y liberalizador enorme, a la par que permite un nivel de control y vigilancia a los ciudadanos nunca antes visto.

Lo que los usuarios hacemos en Internet hace tiempo ya que dejó de ser anónimo e inocuo. Leer los periódicos en línea, conectarse a una red social, hacer compras a través de una página web o solicitar un servicio de taxi mediantes una aplicación para celular permite ofrecer información acerca de nosotros mismos, nuestra ubicación, nuestros gustos y nuestras acciones. Toda esa información es recabada y utilizada posteriormente con fines comerciales, siendo todos los internautas -incuso los más discretos- cómplices de ese intercambio, registro, almacenamiento y análisis global de información que tienen como finalidad conformar bases de datos sobre hábitos, gustos, intenciones, opiniones y localización de los consumidores. Así las cosas, estas redes que utilizan terminologías tan afables como compartir, comunidad, amigos o seguidores, no son más que la máscara de un gran mercado que ha permitido que Apple, Google, Microsoft, Facebook y Amazon sean las compañías más valoradas en los mercados bursátiles del planeta.

Los usuarios hemos aceptado el manejo de nuestros datos porque lo percibimos desde un carácter anarco-liberal: por un lado existe gran eficiencia en recolectar información pero no tanta a la hora de procesarla, mientras por otro entendemos que dicho rastro de datos permite en definitiva satisfacer nuestras propias necesidades. Estamos ante la inocente creencia de que somos nosotros, los consumidores, quienes dictamos tendencias, quienes establecemos las corrientes, quienes propiciamos las políticas de marketing y profiling.

Sin embargo, las revelaciones principalmente de Julian Assange y de Edward Snowden han puesto de manifiesto que dicha acumulación y almacenamiento de información no sólo sirve para fines comerciales, sino que se utilizan con objetivos políticos y geoestratégicos.

Vinculado a lo anterior, desde 1976 es pública la existencia del sistema de satélites ECHELON –considerada la mayor red de espionaje y análisis para interceptar comunicaciones electrónicas de la historia- y controlada por la comunidad UKUSA (Estados Unidos, Reino Unido, Canadá, Australia y Nueva Zelanda). ECHELON puede capturar comunicaciones por radio y satélite, llamadas de teléfono y correos electrónicos en casi todo el mundo e incluye análisis automático y clasificación de las intercepciones. Se estima que en la actualidad ECHELON intercepta más de tres mil millones de comunicaciones diarias.

Pero más allá de estas sofisticadas tramas de espionaje existe una tecnología de vigilancia para todos. Tan solo en el año 2012 los gobiernos del mundo habían ya cuadruplicado las solicitudes de acceso a los datos de Google realizadas en el año 2009, lo cual ya dice mucho teniendo en cuenta que la información divulgada por Google es solo una porción aislada de cómo los gobiernos interactúan con Internet. Una empresa como Facebook tiene en la actualidad dos mil millones de usuarios sin contar con Whatsapp o Instagram, empresas que adquirió recientemente.

Seguramente la mayor interferencia de poder en la red es el proyecto Carnivore del FBI, basado en una ley que garantiza a este organismo poderes exhaustivos para el espionaje. Se trata de un software desarrollado a partir de los atentados del 2001 y aplicado a través de la “Patriot Act”, permitiéndole a los equipos de inteligencia gubernamentales captar mensajes en la red, sobrepasando su efecto las fronteras estadounidenses. De esta manera, la libertad en el Internet y sus redes sociales ha ido quedado acotada tan solo para las grandes corporaciones tecnológicas, quedando como mera utopía los ciudadanos.

Así las cosas, la encriptación ha pasado a ser el nuevo protagonista para la confidencialidad de la información, ya que permite transmitir mensajes secretos que escapan al control de los gobiernos que anteriormente monopolizaban esta capacidad. La criptografía existe desde tiempos remotos: Heródoto nos habla de mensajes secretos ocultos físicamente detrás de la cera en tablas de madera y de tatuajes bajo el cabello de esclavos, o el Kama Sutra lo recomienda como técnica para que los amantes se comunicasen sin ser descubiertos. Utilizada por los gobiernos en sus comunicaciones, la criptografía se ha extendido en múltiples funciones cotidianas, sin ir más lejos en los cajeros automáticos.

El manejo de la criptografía por parte de particulares es un hecho que genera miedo en los gobiernos y la articulación de nuevas formas de control. De igual manera que antaño el control de los medios de impresión fue el fundamento de la restricción de la libertad de prensa, en la actualidad el control de la tecnología de encriptación se ha convertido en un criterio definidor para saber en qué medida los gobiernos respetan el derecho de sus ciudadanos.

En nuestros días, poder, globalización e Internet se entrelazan uniendo y midiendo fuerzas en la nueva sociedad en red que ha florecido al calor del desarrollo tecnológico. En ella se encuentran en claro conflicto los mercados –liderados por las grandes corporaciones tecnológicas-, la seguridad nacional, las libertades ciudadanas y el derecho a la confidencialidad. En el marco de estas disputas, la cultura democrática -característica de las comunidades virtuales y los usuarios personales- se encuentra en franco deterioro.

Ya es una realidad la tendencia a oligopolización de la red, puesto que la liberalización de los mercados ha conllevado a una concentración sin precedentes en el sector de las TIC. En paralelo, cabe recordar como los años cincuenta Aldous Huxley y George Orwell construyeron sus respetivos mitos de “Un mundo feliz” y “el Gran Hermano” a partir de la idea de que la ciencia y la técnica, al servicio del poder, conducirían a formas de dominio absoluto del ser humano. En todo caso, la novedad respecto a aquellas tesis cada vez más reales elaboradas a mediados del pasado siglo está en que en lugar de hacerse más fuertes los Estados, estos ya han perdido el monopolio del control económico y cultural, faltando poco para que suceda lo mismo respecto al control de la política y el uso de la violencia.

viernes, 10 de noviembre de 2017

Atrincherados

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Por Decio Machado / Quito (Ecuador)
Revista La Brecha / Uruguay

La apuesta correísta por desplazar al mandatario Lenín Moreno de la presidencia del partido Alianza PAIS fracasó, pero dentro del partido gobernante se sigue librando una guerra de posiciones entre los seguidores del ex presidente Rafael Correa y su sucesor. Mientras tanto, en Ecuador se habla más de intrigas partidistas y menos de política.

La guerra de posiciones, también conocida como guerra de trincheras, si bien fue utilizada como táctica militar en la guerra de Secesión de los Estados Unidos (1861-1865) y en la guerra ruso-japonesa (1904-1905), adquirió su protagonismo mundial a partir del fracaso de la ofensiva relámpago iniciada en Europa por los alemanes en 1914. Dicha estrategia militar dio paso a un modelo de guerra de frentes estables que inmovilizó a los ejércitos en líneas de trincheras que se extendieron a lo largo de cientos de kilómetros, desde el Mar del Norte hasta Suiza durante la Primera Guerra Mundial.

Este nuevo escenario bélico propició una guerra de desgaste que produjo un elevadísimo número de bajas y arruinó la moral de los soldados. Las tropas en liza se vieron obligadas a luchar durante meses en trincheras, en penosas condiciones, bajo la constante acción de la artillería, rodeados de alambradas, enfangados en terrenos infectados de roedores y enfermedades, así como sometidos al permanente accionar de las armas automáticas y los nuevos ingenios bélicos de la época tales como lanzallamas y gases venenosos –mostaza y fosgeno entre otros-.

En los párrafos más legendarios de sus Quaderni del carcere, Antonio Gramsci reflexionaría sobre estas estrategias de guerra aplicadas en la Primera Guerra Mundial, posición y maniobra –definiendo a esta última como el asalto-, entendiendo al Estado como apenas una trinchera avanzada más del conjunto de fortificaciones de los sectores populares en su lucha por la hegemonía.

Gramsci tuvo que releer a Maquiavelo, el padre de la política como ciencia del poder, para entender que la hegemonía es la capacidad orgánica de los sectores dominantes para convencer a las mayorías sociales de los relatos que justifican y explican el orden político. A partir de ahí, ganar en la política hegemónica es básicamente convencer al resto del relato propio.

La guerra de posiciones, la disputa por la hegemonía y parte del pensamiento estratégico de Gramsci respecto al funcionamiento del poder y el Estado moderno ha vuelto a tomar actualidad en la disputa política existente en Ecuador.

Con base en lo anterior, a finales del pasado mes de octubre la facción hard correista de Alianza PAIS –que controla una parte importante de la Directiva Nacional de dicho partido- determinó unilateralmente y de forma no reglamentaria retirar a Lenín Moreno de la presidencia de su agrupación política y posicionar en su lugar a Ricardo Patiño –quien ejerce como segundo vicepresidente del partido y dado que el primer vicepresidente está preso investigado por corrupción-. El objetivo era hacerse fuertes en las trincheras del aparato del partido gobernante con el fin de obstaculizar las políticas de reformas emprendidas por el actual mandatario y su equipo ministerial.

Sin embargo, apenas unas horas después, varios miembros del Gabinete Presidencial y del Buró político de Alianza PAIS rechazarían públicamente dicha decisión, definiendo dicha resolución como arbitraria y antidemocrática. Ante la confusión generalizada entre la militancia, simpatizantes y redes clientelares del partido político hegemónico en Ecuador, el Tribunal de Garantías Penales dejaría –de forma inmediata- sin efecto la decisión adoptada por la Directiva Nacional, prohibiendo al Consejo Nacional Electoral inscribir al ex ministro correista Ricardo Patiño como nuevo presidente de Alianza PAIS.

El porqué del intento de golpe de Estado en Alianza PAIS

El enfrentamiento entre correistas y morenistas en el partido gobernante tiene su origen prácticamente desde el mismo día de la toma de posesión del presidente Lenín Moreno.

Pese a que Lenín Moreno fue parte el binomio presidencial de Rafael Correa en las elecciones del 2006 y del 2009, ejerciendo durante ambas legislaturas como vicepresidente de la República, en la actualidad el ex mandatario ecuatoriano es el principal opositor de su gobierno. En la guerra de trincheras tranzadas al interior de Alianza PAIS y en los distintos frentes institucionales, mientras los partidarios de Moreno han trazado una política de reformas que conlleva una narrativa autocrítica respecto a determinadas políticas públicas ejercidas durante la anterior legislatura y la apertura de procesos de investigación sobre distintos casos de corrupción institucional, los correistas intentan tácticamente derrumbar la figura de Lenín Moreno posicionándole como un traidor que se ha aliado con la derecha.

En esta guerra de posiciones que se viene dando durante los poco más de seis meses de mandato de Lenín Moreno, el correísmo -al menos hasta ahora- se decanta como claro perdedor. Mientras el actual mandatario ostenta índices de popularidad elevados, la figura de Rafael Correa –quien dejó una economía nacional en recesión a la par de que se destapan cada vez mayores casos de corrupción entre sus colaboradores más cercanos- se ha visto seriamente deteriorada.

El último movimiento táctico del presidente Moreno fue la convocatoria de una consulta popular compuesta por siete preguntas, entre las cuales destacan la anulación de la enmienda constitucional realizada en la última etapa correista que permite la reelección indefinida, buscando imposibilitar que Rafael Correa sea candidato presidencial en las próximas elecciones; así como la reestructuración del Consejo de Participación Ciudadana y Control Social –organismo compuesto por personalidades afines al ex mandatario- abriendo la posibilidad de evaluar el desempeño de las autoridades en organismos de control del Estado y cesarlos.

De ser aprobadas estas dos cuestiones, y todos los sondeos de opinión desarrollados hasta el momento así lo indican, el correísmo sufría un vaciamiento completo de poder a la par de que se anularía cualquier posibilidad de rearticulación política de esta tendencia cara al futuro.

Juego de estrategias

El movimiento desesperado de los sectores correistas al interior de su organización política, buscando una ilegítima destitución y posterior expulsión de Lenín Moreno del partido, es la consecuencia de lo anteriormente señalado. En paralelo, esta fracción política está presionando a la Corte Constitucional –cuya composición deviene del periodo anterior y tiene clara afinidad con Correa- buscando que dichas preguntas no sean viabilizadas. De igual manera se procede en bancada oficialista, mayoritaria en el Legislativo, buscando bloquear las iniciativas políticas provenientes del Ejecutivo y el juicio político contra el encarcelado vicepresidente Jorge Glas.

Sin fuerza política y apoyado ya tan solo por un sector de voto duro identificado con sus postulados, el cual se estima entre el 20 y 23% del electorado, el correísmo es consciente de que el tiempo juega en su contra.

El diseño estratégico del intento de destitución a Moreno se basó en intentar generar una crisis política al interior de Alianza PAIS que desembocase en una Convención Nacional extraordinaria, la cual con Rafael Correa a la cabeza les permitieran recobrar las riendas de su partido y la hegemonía perdida en la política nacional. Sin embargo este movimiento político, creado apenas seis meses antes de su primera victoria electoral en 2006 y sin bases políticas en aquel entonces, se construyó verticalmente a la sombra del poder, con cuadros y caciques políticos de perfil arribista y fuertemente enraizado en la tradicional política clientelar ecuatoriana, elementos estos que dejaron de ser funcionales al correísmo una vez que el ex mandatario abandonó la poltrona presidencial.

Los resultados de este último pulso político han sido devastadores para Rafael Correa: los morenistas anunciaron públicamente que 44 de los 75 asambleístas que conforman la bancada oficialista en la Asamblea Nacional se alinearon con Lenín Moreno, lo que vino a significar que Correa perdió del control del Legislativo, mientras que la mayoría de las direcciones provinciales de dicha organización política han manifestado su rechazo a la resolución de la Directiva Nacional y su apoyo a Lenín Moreno.

Pese a ello Ricardo Patiño, principal operador político de Correa en el país mientras este sigue residiendo en Bruselas, anunció la próxima llegada del ex mandatario a tierras ecuatorianas, previendo que los principales dirigentes correistas que participaron en esta resolución podrían ser próximamente expulsados por la Comisión de Ética y Disciplina de dicha formación política. Así las cosas, la guerra de posiciones y el intento de asalto en Alianza PAIS planteadas desde el correísmo ha tenido un resultado desastroso y sus respectiva trincheras en diferentes instituciones y partido han quedado sumamente debilitadas.

Lo anterior implica que si Rafael Correa vuelve en los próximos días al Ecuador será posiblemente para liderar la conformación de una nueva organización política, buscando confrontar políticamente con el actual gobierno oponiéndose a la consulta popular, y no para restablecer su liderazgo sobre el partido que fundó.

Riesgos de quiebre en la política nacional

El presidente Moreno ha sabido rentabilizar políticamente su distanciamiento de Rafael Correa, planteando la necesidad del diálogo y el consenso en una sociedad que había quedado fuertemente polarizada y plantear como bandera la lucha contra la corrupción. Sin embargo, existe un déficit respecto a la capacidad de ejecución política del Ejecutivo y no se sabe aún cual es la hoja de ruta en esta legislatura, lo cual comienza a generar ciertas desconfianzas entre la sociedad respecto a un presidente cuya popularidad se basa únicamente en el discurso.

Por su parte, tanto Rafael Correa como sus operadores al interior del Gobierno y Alianza PAIS buscan articular su estrategia en torno al miedo ciudadano de una posible vuelta del Ecuador al pasado, algo ya utilizado campaña tras campaña electoral durante la última década y que hoy es un argumento poco consistente ante la sociedad ecuatoriana.

La oposición política, más allá de la disputa interna al interior de Alianza PAIS, en la actualidad no existe tras haber quedado sin espacio en el tablero de juego nacional.  De igual manera, los movimientos sociales y el movimiento indígena en particular se han quedado sin voz, inmersos en estos momentos en negociaciones con un Gobierno que se adviene al menos a escucharlos tras diez años de persecuciones y criminalización de la protesta social.

Así, el panorama político a medio plazo en Ecuador apunta como desolador. Mientras Alianza PAIS se autodestruye, ni la oposición conservadora ni la izquierda tradicional son capaces de posicionar alternativas con cierta legitimidad social. A su vez, el electorado es incapaz de distinguir entre las categorías políticas tradicionales de izquierda y derecha, pues tras diez años de un discurso institucional revolucionario adornado con viejas canciones reivindicativas y permanentes loas a múltiples mitos revolucionarios, resultó que los grupos económicamente más beneficiados del régimen fueron los de siempre y permaneció una sociedad muy desequilibrada a favor de los históricamente privilegiados. Esto devino en que cada vez más amplios sectores de la sociedad estén planteando un hastío creciente a la política tradicional, lo que ya no se clasifica bajo el eje izquierda-derecha.

Por su parte, la incapacidad de renovación en los liderazgos históricos de los movimientos sociales ecuatorianos siguen mermando la posibilidad de nuevas formas de intervención, la articulación de un discurso diferenciado y el reposicionamiento de lo no institucional en el ámbito de la política, quedando la política limitada a las luchas de poder entre estructuras partidistas que se disputan el control de unas instituciones que no están diseñadas para transformar las cosas, sino más bien para resistir los cambios que en la actualidad demanda la sociedad.

Lamentablemente no circulan ideas novedosas en la política ecuatoriana y no se está alimentado intelectualmente a una sociedad que busca, sin encontrar, estilos diferentes de ejercer y actuar en política.

Con tales condiciones es fácil prever que ante la ausencia de alternativas creíbles, si el actual Gobierno no es capaz de concretar políticas exitosas que dinamicen la economía nacional, generen empleo digno y revitalicen la capacidad adquisitiva de las grandes mayorías, el Ecuador está abocado durante la actual legislatura a una nueva crisis de representatividad.